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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

AUTONOMIA




Essa imagem parece-me uma releitura daquela criada para representar o 9 de Ouros do Tarot Rider-Waite-Smith. Uma mulher solitária, numa paisagem impressionante, tendo como única companhia o seu falcão.

A figura acima, menos rebuscada, e contra um cenário montanhoso é a expressão da mensagem embutida nessa carta do Tarot: a satisfação de ter atingido a um patamar de desenvolvimento pretendido e estar em perfeita harmonia com o ambiente e consigo mesmo.

Aquele leão da carta da Força, aceito, compreendido e controlado, agora reaparece na plumagem dessa ave caçadora, pronta para executar o que seus instintos a induzem, porém sob total controle de sua dona. Se com o leão a forca era muito mais primária, física, terrena, agora o céu é o limite. Os voos são rápidos, os movimentos precisos, os olhos aguçados, a visão muito mais abrangente, de 360º, as garras fortes. Persegue seus objetivos com equilíbrio e tenacidade, de maneira clara, holística.

A montanha, representação de grandes interesses e objetivos, de poderio, superioridade e acúmulo de reservas, também pode simbolizar um obstáculo, em sua frieza,  e necessita de coragem, determinação, competência e planejamento para ser escalada. Só mesmo a uma inabalável determinação faz com que o alpinista a conquiste e finque nela sua bandeira, deixando sua marca pessoal.

Pode-se, simplesmente apreciando a foto, ouvir os ventos que sopram nas grandes alturas, onde a solitária caçadora sente-se à vontade. Ela se basta. Não necessita de nada ou ninguém para lembrar-se de quem é, do que deseja e o que já conquistou. Seus objetivos ela mesma os constrói.



O 9 de Ouros pode levar à uma enganada interpretação de "solidão, apesar de ter tudo o que quer". Isso é, antes de mais nada confundir os significados de ser solitário e estar só.
Existem milhões e milhões de pessoas solitárias neste planeta e que vivem mendigando a atenção, a companhia e o amor do outro para poderem aceitar-se a si próprias. Sem o "selo de qualidade" dado pelo outro, elas se sente rejeitadas, menores, incompletas, desvalorizadas. Ficam aterrorizadas quando estão consigo mesmas pois, afinal, não sabem o que fazer de si próprias.

Outras existem, e esse é o caso da personagem que estampa o 9 de Ouros, que estão de bem com a vida e consigo mesmas. Podem ter feito escolhas pessoais que as isolaram, em parte, do convívio mais íntimo, mas foram escolhas pensadas, que produziram os resultados esperados e das quais nada têm a reclamar. Podem estar, em maior ou menor grau, solitárias, mas não padecem de solidão. Estão em perfeita harmonia com seus desejos, pretensões, vontades, esperanças, crenças e conquistas. Gostam de si mesmas, não de maneira ególatra, mas por terem agido de acordo com seus interesses e princípios, enfrentado as dificuldades de maneira sóbria, racional, usando de seus conhecimentos e se utilizando de cada obstáculo como a um degrau a mais em sua escalada. Não se isolam, mas também estão cientes que, em seu percurso, tornaram-se mais exigentes. Aprenderam a sere mais seletivas e sabem diferenciar e priorizar "qualidade" de "quantidade". Não buscam companhia para compartilhar solidão a dois, mas para poderem evoluir, cada um à sua maneira, respeitando-se, não usando o outro e nem se deixando usar.

Evoluída, seus instintos a retiram da primitiva luta pelo domínio e sobrevivência e a trazem ao mais alto, ao mais espiritual que a civilização consegue conceber, perceber, experimentar e ambicionar. Ela não necessita mais preocupar-se com aquilo que só representa acumulo material, até mesmo porque esse é um estágio que ela já viveu. Ocupa-se agora em usar das suas posses para causas mais amplas, mais elevadas, menos particulares. E, para tanto, usa seus instintos, na forma de seu fiel escudeiro, o falcão, para subir ao mais alto, e, de lá de cima, encontrar uma maneira de retribuir o tudo que lhe foi concedido.

Alex Tarólogo
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

AS TENTAÇÕES



Desde a primeira vez que vi essa foto associei-a àquela imagem do 7 de Copas, criada pela Pamela Smith para o Tarot do Waite.

Independente de todos os possíveis significados, inclusive alguns bastante divergentes, atribuídos à carta, ela sempre me pareceu a fotografia de alguém frente a uma vitrine, dessas das grandes lojas. Literalmente hipnotizado pelas possibilidades de ofertas, a figura central está alheia a nós que o observamos, e ao mundo. A sensação que essa imagem sempre me passou é a de alguém vivendo um momento de absoluta entrega aos prazeres do consumismo, das fantasiosas possibilidades que a propaganda e a publicidade criam e que nos convencem a querermos ter. É aquele momento em que nos perguntamos: "como é que eu pude viver sem isso até hoje???


Consumir além do necessário, pode ser viciante. Não, eu não faço parte daquele grupo que acredita pia e entusiasticamente que devemos nos contentar com pouco, não adquirir, nem almejar, aquilo do qual não temos a mais imediata necessidade, e desconfiarmos de tudo o que a publicidade, tida como a máquina que movimenta a economia, nos empurra garganta abaixo.

Mas também, claro que sei que há limite para tudo e que nunca se deve comprometer o que não se tem para ter-se o que se quer, por capricho. Não irei fazer aquela apologia do "gaste agora, compre tudo o que quiser. Depois a gente dá um jeito". Obviamente, não. Mas também não fiz voto de pobreza e nem pertenço a uma ordem trapista. Os recursos do novo celular, a ser lançado para o Natal, já me faz olhar para o meu, como uma relíquia de 6 meses de idade...

As tentações possuem tentáculos. Obvio, não é mesmo? Assim elas nos arrebatam da nossa pacifica, e maçante vidinha comum e nos transportam para uma aventura digna de best-sellers e filmes de ação. Subjugam nossa vontade, ignoram qualquer lógica ou razão, e nos seduzem com a idéia de que seremos totalmente felizes se adquirirmos tudo o que quisermos, encontrarmos prazer com qualquer um, formos reconhecidos e bajulados por aquilo que temos e fazemos absoluta questão em exibir, naturalmente.


E, por que não por aquilo que somos ?, poderão me perguntar. Porque, em diversas situações, o que realmente somos deixou de existir, cedendo lugar a um ser movido exclusivamente por sensações, ilusões, fantasias, paixões, desejos e poderes temporários, de brevíssima duração. Eternamente insatisfeitos, sempre sentindo um vazio não identificável, vamos nos deixando arrastar, iludidos de que ainda temos algum controle sobre nossa vontade, nossos impulsos.

Na melhor das hipóteses, conseguimos a custo de muito sofrimento, e com o apoio de familiares, amigos e profissionais, nos libertar da compulsão de cedermos aos nossos instintos menos apreciáveis, aos nossos devaneios mais absurdos, aos nossos mais deploráveis vícios. Grupos de apoio existem e são eficazes nesse momento. Não é covardia e nem pouca auto-estima, reconhecer-se fraco, carente e dependente. Ao contrário, é preciso ser muito lúcido, para tanto. Ninguém vence todas as armadilhas que fazem do viver, especialmente sob o peso da observação, crítica e jugo social, uma arte.

Olhe bem para o simpático polvo (há muito tempo o Diabo deixou de lado o aspecto monstruoso e o aroma de enxofre...) no topo desta página, tão cheio de ofertas, de possibilidades, de pequenas e atraentes fantasias. Optar por qualquer delas pode resultar em ter de lutar pela própria vida, no fundo de um mar... de dívidas!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

EMPATE





EMPATE

A imagem de um prendedor de roupas, cada uma de suas partes de uma cor, como que dialogando entre si, pode ser comparada, em termos de simbologia, com o significado tarológico da carta do 2 de Espadas.
A figura pintada por Pamela Colman Smith para essa carta do tarot do Waite, onde uma figura vendada (sem fazer escolhas óbvias, racionais, influenciadas pelas aparências), está sentada (não tem pressa, a situação é demorada e demanda ajustes) de costas para o mar e a noite enluarada (evitando deixar-se decidir de forma unicamente emocional ou intuitiva), segura duas espadas de igual forma e tamanho (problemas, opiniões, possibilidades, opções, idéias, ações, etc. iguais em conteúdo e conseqüências), também expressa um conflito.
É uma decisão a ser tomada para a resolução de um problema, porém envolvendo opções que possuem o mesmo peso e medida. Ou seja, fica-se entre a cruz e a fogueira. É um beco sem saída.

Interessante observar que a carta 2 de Espadas retrata um momento de aparente paz. Há um silêncio, uma inatividade, uma imobilidade bastante frustrante e constrangedora na imagem. As espadas cruzada sobre o peito da mulher não irão permanecer nesse forçado equilíbrio por muito tempo. Mas, tempo é o que ela precisa para poder optar com maior segurança. Então, sentada, alheia às suas emoções e evitando confrontar-se com a realidade, ela espera.




E aí surge uma possível analogia com a ilustração do prendedor de roupas. Sua função é a de segurar, prender, imobilizar a roupa enquanto ela seca. Não é ele o agente da ação, mas um coadjuvante indispensável. Sem ele as roupas voariam ao sabor do vento e, ao invés de secarem, se perderiam ou se sujariam novamente. Ele controla o tempo para que a ação de secagem aconteça, realizada pelo sol e pelas correntes de ar.

O 2 de Espadas sugere ambivalência, conflito de interesses e opiniões aguarda-se uma escolha definitiva. Um trégua ou um acordo podem estar existindo, entretanto a situação não está resolvida e o problema continua ali, esperando uma solução. Talvez seja chegada a hora de parar de procrastinar e agir, optar, decidir, escolher. Talvez, não. Pode ser que a figura da carta do tarot esteja aguardando, sem decidir-se, esperando que a situação se resolva por si mesma, por fatores externos, sem o seu comprometimento.

No desenho do pregador de roupa, ambas as partes são iguais e válidas, necessárias para o funcionamento do artefato, ainda que opostas, antagônicas. Mas ele, também, não decide como ou em quanto tempo a roupa deve secar. Fica lá, parado, prendendo a situação, aguardando que o clima e o tempo decidam como, quando e porque faze-lo. Enquanto isso, espera.

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM TRÂNSITO





EM TRÂNSITO


A imagem de uma garrafa, que abriga em seu interior uma mensagem, vinda dar a uma praia qualquer é sempre interessante, ainda que seja um lugar comum em romances e filmes. O mar, nesse caso, funciona como um carteiro, cumpridor de sua missão, e que sabe onde entregar a “correspondência”.
Na verdade, não é uma correspondência, pois não há a menor condição de resposta. Para onde enviar? É, mesmo, uma mensagem. Uma declaração, um depoimento, um testemunho, uma consideração, um aviso, algumas reflexões, uma piada.

A imagem da garrafa lançada ao mar, que navega mares e oceanos, enfrenta perigos diversos na forma de tempestades, o sol implacável, animais, ventos, correntes marítimas, até aportar nas areias mornas e esperar que alguém a abra e leia se conteúdo, traz consigo uma ideia de um dever solitário.
Quando vi a foto acima, de imediato associei-a ao 6 de Espadas. É até bastante óbvio pois temos, em ambas, o elemento mar, a nave (barco/garrafa), a figura feminina à mercê de ser conduzida (pelo navegador do barco ou pelo destino).

Difícil, observando-se ambas, não associá-las à viagens, mudanças, transporte, transferência. E isso também está contido em seu significado taromântico. Entretanto, por estarmos lidando com uma carta do naipe de Espadas, estamos na esfera do racional, do pensamento abstrato, da análise mental, do discernimento, da verdade, das questões éticas e morais, do cálculo, da objetividade, da precisão.
O que é que essa mulher coberta por uma escura capa e abraçada a uma criança (?) transporta, em forma de 6 espadas? E para onde vai? E quem é o homem que dirige a embarcação?
Ou seja, esse conjunto de personagens em uma determinada situação que beira o surreal (afinal, 6 espadas fincadas no fundo de um barco de madeira não é muito normal...) é que inspira as associações e respostas que cada um obtém da sua atenta observação.

Mas não podemos desconsiderar duas coisas: mudança e raciocínio.




Olho, novamente, ambas imagens e creio ver alguém buscando um novo lugar onde seu conhecimento, seus princípios, aquilo em que ela acredita, a sua forma de pensar e avaliar o mundo encontrem guarida, encontrem ressonância, possam ser apreciados. É como se ela estivesse pensando: “Os incomodados que se retirem”, e ela própria abandonasse uma posição anterior, levando em sua bagagem aquilo que é seu (sua maneira de pensar e interpretar a realidade) e buscasse um porto seguro para si e para os seus.
Isso parece não acontecer de maneira muito fria ou calculista, pois é pelos mais ou menos conturbados movimentos das emoções, entre ondas e calmarias, que essa viagem se processa. Algo de importante, emocionalmente, deve ter sido abandonado em função dessa mudança. Grandes expectativas, geradoras de angústias e temores, fazem parte dessa resolução.

Chegará, ela, ao seu destino final exatamente como partiu? Terão o tempo no mar, o balanço do barco, a ausência de terra firme, a distância percorrida, o possível diálogo com o barqueiro (um mestre, um guru, um professor, um orientador?) modificado algo em sua filosofia, naquilo em que crê, em sua maneira pessoal de captar o ambiente que a cerca, na forma em que compactua ou rejeita a opinião e a verdade alheia? Talvez não. Provavelmente sim. Isso sempre dependerá de quanto ela está disposta em rever seus conceitos, reorganizar suas estruturas mentais, ter uma mente investigativa a tal ponto que a impulsiona a novas descobertas, análises e comparações.

De qualquer forma, ela mesma, essa mulher na garrafa, é a mensagem. Uma missionária de sua própria causa, navegando solitária, porém protegida por aquilo que sabe, que conhece.
Na garrafa, seu timoneiro é o próprio Universo que, muito possivelmente, irá desembarcá-la onde ela sempre deveria ter estado.


Alex Tarólogo

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

TESOURO







TESOUROS DO CORAÇÃO


Onde se pode guardar a felicidade de tal forma que ela permaneça "conservada", inalterável em suas qualidades, preservada da "poluição" e tudo o mais que possa aviltar seus méritos e virtudes?

O trabalho desse artesão que, dentro de um diminuto frasco, eternizou sua ideia de perfeita felicidade fez com que eu imediatamente lembrasse da imagem criada por Pamela Colman Smith para a carta 10 de Copas do Tarot do Waite.

Harmonia, alegria, amor, contentamento nas relações familiares, sociais ou trabalhistas é a essência dessa carta. Ainda que ela se refira, primariamente, à felicidade doméstica, ela é a consequência direta do 2 de Copas, que simboliza o encontro, o contato, o vínculo que estabelecemos com o outro e que, esperançosamente, resulta na sua expansão, agregando outros mais pelos caminhos de seu desenvolvimento.

Se a família, grande ou pequena, é consequência do encontro e comprometimento de duas pessoas, ela também arregimenta a família, os amigos, os conhecidos de ambos os enamorados. Cada um traz seu grupo afetivo para a união. E a soma e equilíbrio entre essas contribuições resulta numa sensação de segurança emocional extremamente satisfatória e produtiva.




Na imagem da lâmina do Tarot um casal e seus filhos demonstram, na sua contemplativa saudação ao arco-íris que se forma sobre suas pessoas e propriedade, uma gratidão que provém do mais fundo de suas emoções. Se o arco-íris é um dos símbolos da presença divina em comunicação com as criaturas, esse grupo de personagens, unidos, expressam seu reconhecimento e encantamento pela "colheita" das bênçãos que lhes foram conferidas.

Também no universo miniaturizado criado pelo artista percebe-se esse mesmo desejo de expressar um estado de harmonia emocional tão importante que se deseja eternizá-lo.
Problemas, dificuldades, insatisfações, quem não as tem, em algumas etapas do caminho? Fazem parte do processo de aprendizagem de todo ser humano. Só sabemos o que é dor ou sofrimento porque conhecemos, e podemos comparar, com a sensação de bem estar e outros aspectos mais saudáveis do viver. Portanto, é natural querer preservar, pelo maior espaço de tempo possível, as condições de alegria e conforto que encontramos quando observamos e vivenciamos os pequenos milagres que a vida constantemente nos concede.

Olhando a imagem da pequena paisagem construída numa garrafinha que pode ser carregada no bolso, penso ser assim a melhor maneira de carregarmos nossas melhores lembranças e sentimentos: sempre conosco, em contato com o coração agradecido.

Alex Tarologo

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sexta-feira, 6 de maio de 2016

EXCLUSÃO





EXCLUSÃO

A fotografia acima é a síntese dos muitos problemas enfrentados por todos os portadores de deficiências físicas: o descaso generalizado em relação às suas necessidades.
Estar impossibilitado de locomover-se com as próprias pernas e deparar-se, como na foto, uma escadaria, é mais do que um obstáculo a ser enfrentado, mas o reconhecimento que a sua situação não merece o mesmo apreço que a das demais pessoas. É ser marginalizado pela sociedade instituída por não estar "em acordo" com o que ela considera certo, correto, representativo.

O cadeirante, na imagem, não tem acesso ao que pretende porque as demais pessoas, intencionalmente ou não, não levaram em consideração a sua condição ao planejarem a escadaria. E, pelo tamanho da mesma, é como se ali estivesse para lembrá-lo que aqueles que não estão em concordância com os padrões estéticos, econômicos ou culturais de um determinado momento histórico, serão punidos por isso, vetando-lhes atingirem seus objetivos.




A artista plástica Pamela Coleman Smith, ilustradora do tarot do ocultista Arthur E. Waite, criou para o 5 de Ouros uma imagem forte, onde a ideia de ostracismo, exílio, abandono, descaso, injustiça social é evidenciada. As duas figuras que perambulam pela rua, sob uma nevasca, passando num cenário urbano onde não há uma porta sequer onde possam pedir ajuda e abrigo, foi a maneira pictórica que a artista encontrou para representar a noção de rejeição, de falta de apoio social que os dois caminhantes enfrentam. 
Um deles, deficiente, utilizando-se de uma muleta (a incapacitação física) e com uma bandagem a lhe envolver a cabeça (a doença mental), com um sino pendurado ao pescoço, para, de antemão, anunciar a inconveniência da sua presença, indigna e inaceitável. A outra figura, feminina, envolve-se em panos rotos e caminha descalça pela neve, num evidente estado de miséria e privação (o colapso do aspecto material). 
Ambas caminham sob uma janela, onde um grande vitral com o desenho de uma "árvore da vida" formada por cinco pentáculos, é iluminada do seu interior, como que a nos lembrar que o abrigo, a segurança, o otimismo, as possibilidades, o suporte social ou religioso encontram-se bem guardados, protegidos, cultuados, porém inacessíveis aos que não fizeram jus (em que tribunal?) em merecê-los.

A ideia de injustiça permeia essa carta, que, provavelmente será reparada na próxima, o 6 de Ouros. Enquanto isso, as pessoas continuam a passar pelas calçadas abarrotadas de mendigos, enjeitados, doentes, deficientes, e procuram de todas as maneiras ignorar o que está em seu campo de visão. É como se, recusando-se a ver e conscientizar-se de que há insegurança, carência, impotência, doenças e todas as demais formas de privação, elas deixassem de existir ou as tornasse imunes aos problemas e preocupações.

Ainda que esse problema que assola nossas cidades deva ser algo a ser resolvido dentro da esfera governamental, é preciso que se estabeleça a responsabilidade individual, já que todo governo eleito é a representação do nosso caráter, do nosso estágio evolucionário e das nossas ideologias, crenças e aspirações.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 30 de março de 2016

TRÉGUA


 

“A pausa que refresca”. Esse sempre foi um dos slogans da Coca-Cola, essa marca de refrigerante que dominou o mundo através de uma maciça, criativa, popular, e sem data para terminar, campanha publicitária. Enfim, há que se reconhecer que uma simples receita de um “tônico” tenha evoluído para uma das marcas mais valiosas e, como bebida, tenha atingido e agradado a tantos, em todas as regiões do globo.
Mas o que mais me agrada na publicidade acima é a frase que a acompanha e justifica a imagem que a ilustra. A dona de casa, entre tantos afazeres domésticos, concede-se alguns momentos de distanciamento de suas obrigações e dedica-se a saborear... o dia, o tempo que passa, as imagens que surgem em sua mente, a satisfação de estar ali, presente, vivendo aquele momento sem expectativas ou ansiedades. É um momento de recuperação, de restauro das energias. Hora de recarregar as baterias. Um intervalo entre uma e outras atividades.





O cowboy deitado no meio do campo, com 4 espadas pendentes sobre si, em muito se assemelha à mulher da figura no alto desta página: dando um tempo entre tarefas a serem cumpridas, obstáculos a serem vencidos, planos a serem pensados, problemas a serem resolvidos, assuntos a serem discutidos, decisões a serem tomadas.

Ainda que ele não faça uso do estimulante e gaseificado frescor do refrigerante, ele busca o tranquilo e silencioso ambiente do claustro para isolar-se, momentaneamente, e repor as energias que lhe serão necessárias para solucionar todas as pendências. Creio que, cada um à sua maneira, encontrou uma forma de desestressar-se no transcorrer da execução de suas obrigações e compromissos. Inúmeras vezes nos vemos “bombardeados” com uma sucessão de problemas a serem resolvidos, de atividades a serem cumpridas, e acabamos por resolver tudo às custas de muito esforço e sacrifício, terminando esgotados e sem nenhuma satisfação com todo o processo. Noutras, nos atrapalhamos na execução dos mesmos e não os completamos ou, pior, os fazemos mal feitos devido à impossibilidade de nos concentrarmos num só a cada vez. Em todos os casos, saímos decepcionados e vencidos, com uma sensação de amarga sensação de incapacidade.

Entretanto, o que a carta do 4 de Espadas do tarot simboliza é a busca de uma estabilidade pessoal, de um equilíbrio, de uma harmonia interior. O guerreiro está deitado numa perfeita horizontalidade, perfeitamente apoiado à pedra que o suporta. Sua posição é formal, equilibrada, porém tranquila. A espada que está sob seu corpo pode estar sugerindo que, entre os problemas a serem pensados e resolvidos, alguns já foram solucionados, enquanto que outros aguardam, seu retorno à ativa, para serem avaliados e resolvidos.

Saber o momento de fazer uma trégua na luta diária, consciente que tudo poderá ser melhor esclarecido, analisado e executado se estivermos no melhor do nosso desempenho físico, mental e emocional, é um bom pressuposto para ações vitoriosas.
Há quem para tudo e vai dar uma breve caminhada; outros relaxam por alguns minutos ouvindo música; alguns leem um poema ou mais um capítulo de um livro; há quem prefira meditar. Qualquer que seja o método usado, o importante é aproveitar esses momentos para desviar a atenção do assunto em questão e procurar reencontrar o equilíbrio perdido. 
Para “cabeça quente” nada melhor que uma pausa refrescante.


Alex Tarólogo

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terça-feira, 22 de março de 2016

RUÍNA



 
Essa foto do filme “M, o Vampiro” (1931), uma das obras primas do Expressionismo alemão do diretor Fritz Lang, mostra o momento em que o personagem principal do filme, um serial-killer, é identificado pela população.
Os dedos acusadores, incriminando o suspeito, tornam ainda mais evidente a expressão de total desamparo e desespero do ator Peter Lorre. O “vampiro” foi, finalmente, após uma trilha de crimes cometidos contra as crianças de Dusseldorf, desmascarado. Em seu rosto, um rictus de horror que muito revela sobre seu caráter, como da tomada de consciência das consequências de seus atos.
Não mais mentiras, disfarces, subterfúgios. A hora da verdade é chegada. Esse assassino pode ter enganado a muitos, durante muito tempo e isso pode te-lo transformado num arrogante matador. Entretanto, mesmo que tardia, a verdade é algo da qual não podemos escapar totalmente e, no caso desse personagem, a foto acima retrata a sua queda.
Nada mais poderá salvá-lo. Todas as suspeitas se confirmaram e provas concretas foram coletadas. Não há mais condições para álibis ou novas mentiras. O rastro de seus crimes e o acreditar-se mais esperto e inteligente que todos os demais, foram a sua própria armadilha. Agora é o momento em que o Ego é reduzido à nada.



A pintora Pamela Colman Smith, no começo do século passado, criou uma imagem muito dramática para a carta 10 de Espadas do tarot do Waite. Nela, uma figura humana está prostrada ao chão com 10 espadas cravadas em suas costas. É a morte moral, do respeito e aceitação sociais, do orgulho, do Ego. É o fim. Há que reconhecer ter perdido todas as batalhas, ter sido vencido em todas as suas tentativas de impor-se. Não há outra saída a não ser entregar-se, reconhecer a derrota e, como nada mais há para perder, recomeçar a construir-se, agora sem ilusões, sem fraquezas, sem preconceitos, com novas crenças e valores.

O “vampiro”, também, foi derrotado pela luz, pela claridade e transparência da verdade. Seus atos escusos foram expostos, inclusive a si próprio. Ele, que os cometia protegido dos outros, e da sua consciência, nas sombras da noite, tem nos dedos acusadores que apontam em sua direção como que raios de luz a revelar-lhe o quão errado estivera até então. É chegado o tempo de sofrer as consequências dos erros cometidos, resignar-se, curvar-se diante das evidências e, na medida do possível, reerguer-se, regenerar-se, curar suas feridas.
Ambas as figuras, tanto no fotograma do filme quanto na carta, estão sem saída. Um está “contra a parede”; o outro, “derrubado”. Os dois: vencidos, derrotados.
O que cada um foi ou representou, acreditou ou cometeu, está morto e, como tal, dá lugar para o novo. Pior do que está, não vai ficar. É o “fundo do poço” e, como tal, só lhes sobra subir pois, descer mais, é impossível.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 14 de março de 2016

DERROTA




DERROTA
O fotógrafo conseguiu, nesse "tableau vivant", elaborada montagem que nos remete aos frisos dos chamados "arcos do triunfo", portais comemorativos às batalhas vencidas e aos feitos de seus soberanos e heróis, passar as mesmas qualidades de tirania, opressão, ameaça, rixa, desavenças, maus tratos, desonra, degradação e medo que encontramos nos significados da carta 5 de Espadas, no tarot.
Os personagens da cena ou estão exercendo um poder de coerção, subjugando os demais, destituindo-lhes de toda a dignidade e capacidade de resistência, ameaçando-os de extinção, ou então, são as vítimas, escorraçadas em seus cantos, depostas de sua valentia e orgulho, temerosas com os acontecimentos, desistindo de lutar o bom combate.

Todas essas características as vemos replicadas na imagem criada por Pamela Colman Smith para o 5 de Espadas encomendado pelo ocultista Arthur Edward Waite para o seu tarot.
Em primeiro plano, um homem, com olhar irônico, segura 3 espadas, enquanto 2 se encontram caídas ao chão, como se lá estivessem abandonadas pelas outras duas figuras masculinas que se afastam, em direção ao mar. Nuvens cinzentas, ameaçadoras em seu formato pouco ortodoxo, cobrem o céu.




Esse é o tipo de carta que tanto pode ser aplicada, em seus significados, ao vencedor, como ao vencido. Ambos, afinal, estão vivendo o mesmo tipo de conflito. Assim como ela pode representar um momento em que estamos sós, sem ninguém para nos ajudar, num momento de derrota e humilhação, sentindo-nos fracos, abatidos, sentimentalmente derrotados, espiritualmente combalidos, essa carta também pode referir-se ao fato de estarmos na posição daquele que busca dominar, magoar, desestabilizar e finalmente destruir o outro. Encontramos esse tipo naquele que faz questão em ser um "Cruzado" de alguma causa, crença ou ideologia, sempre procurando, de todas as maneiras, impor sua "verdade" aos outros.

De qualquer forma, essa derrota deveria ser aceita de forma passiva, corajosamente, sem luta, sem rancor e com paciência, pois é algo que temos que viver, do qual não podemos fugir. Faz parte do nosso destino e, muitas vezes, é o resultado de atitudes ou hábitos auto-destrutivos, ou mesmo da falta de pensar melhor nas possíveis consequências que esses atos acarretam. Somos, em diversas ocasiões, motivados por simples falta de bom senso e humildade, a enfrentar batalhas já de antemão perdidas, de onde sairemos feridos, traumatizados, unicamente porque não soubemos aceitar nossas próprias limitações, reduzir o orgulho, desinflar o ego e desistir da luta.

E o que resta no campo de batalha, após essa luta onde todos, no fundo, são perdedores? Mágoas profundas, extensas cicatrizes, pensamentos mórbidos, sentimentos derrotistas, medo de tentar novamente e uma grande incerteza sobre o futuro.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 9 de março de 2016

SOFRIMENTO





Não há dúvidas, olhando a foto acima, sobre o tipo de sentimento que essa imagem busca expressar. Há, nesse coração preso a um velho poste por voltas de arames farpados, um retrato de dor, sofrimento, arrependimento, desilusão. Tal qual a coroa de espinhos sobre a fronte do Cristo, esses pontiagudos pedaços de metal não só aprisionam e ferem impiedosamente, mas desqualificam o valor do sentimento representado pelo rubro coração.
Essa imagem em muito se assemelha à do 3 de Espadas, uma carta que quase sempre prenuncia tempos bastante sofridos e pesarosos, onde mágoas e lágrimas costumam juntar-se a sentimentos bastante funestos em relação à vida. Como todas as demais cartas do naipe de Espadas, o aspecto que tratam é a nossa mente racional, nossa capacidade de observar, dissecar, analisar e chegar a um resultado. É a lógica, a razão, o aspecto matemático, científico, a capacidade de julgar e tirar conclusões. E, na carta de número 3 desse naipe, temos a clássica ilustração de Pamela Smith para o tarot de Waite, onde 3 espadas atravessam um coração que flutua sob a chuva que cai de cinzentas nuvens. Quadro bastante desolador...







Oracularmente, o 3 de Espadas prenuncia tempos de grandes desapontamentos, de sentimentos de pesar dignos, em sua exaltação, aos mais trágicos libretos operísticos. Há algo de profundamente melodramático nessa carta. Pode, inclusive, ser uma grande desculpa para não encarar a vida de frente, limitando-se ao romântico e operístico papel do amante enlutado.
As espadas cravadas no coração simbolizam que a perspectiva que estamos tendo da situação é enganosa, pois filtra os reais aspectos lógicos e racionais pelo âmbito turbulento, e nem sempre transparente, das emoções.

No século XVIII, o poeta inglês Leigh Hunt escreveu algo que muito bem descreve esse estado de alma:



"Afeto, igual à melancolia, aumenta insignificâncias; o primeiro vê corpos celestiais por um telescópio; o segundo vê monstros por um microscópio."

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 4 de março de 2016

CORAGEM





CORAGEM

Dois contra uma multidão. Poucas vezes vi uma foto que, de forma tão eloquente, fizesse uma referencia ao 7 de Paus, carta do tarot.
Ainda que a imagem clássica, e em especial a criada pela artista Pamela Colman Smith para as cartas do tarot do Waite, registre unicamente a figura de um homem, no alto de uma colina, ou de qualquer outra posição elevada, defendendo-se, ou brandindo, com um bastão contra outros 6 que, mais abaixo, o ameaçam. Essa composição fala por si: defender seus pontos de vista, seus objetivos, suas crenças, sua vontade, não temendo a confrontação. O fato da artista ter pintado a figura num plano mais elevado carrega a mensagem de que ele está em melhor condições de defender seus argumentos e interesses frente aos demais. Já se encontra num patamar mais alto, já atingiu um nível de sabedoria e força de vontade maior que os outros que o ameaçam.




Essa carta traz consigo uma mensagem bastante positiva que incita a quem a recebe, ou nela medita, a defender confiantemente seus atos, seus motivos, seu estilo de vida, sua filosofia e aquilo no que acredita. Para tanto, faz-se necessário analisar detalhadamente seus objetivos e as estratégias empregadas para alcançá-los, corrigindo possíveis enganos, reavaliando prováveis resultados. Isso requer disciplina, autoconfiança e coragem, lembrando que coragem e medo andam de mãos dadas. O medo desestabiliza, roubando-nos a certeza da nossa capacidade e habilidade. Ignorá-lo não é uma solução sábia, pois nos deixa impossibilitados de o observarmos com suficiente clareza e imparcialidade para que possamos melhor avaliá-lo.

Na imagem no alto da página apenas 2 homens conseguem, sem aparentar nenhum esforço sobre-humano, conter centenas de pessoas que buscam ultrapassar os portões do que, supostamente, aparenta ser uma grande construção. Sem entrar no mérito do que as levou a optar por essa tentativa de invasão, o que importa é a imagem em si, que tão bem dialoga com a, já comentada, 7 de Paus.
Talvez a maioria das pessoas se acovardasse diante dessa turba, cuja força física, pela lógica, em muito supera a das 2 solitárias figuras que os enfrenta. Mas basta olhar a foto atentamente para ver que eles dois estão em posição vantajosa, apesar de tudo. Protegidos pelos muros e altos portões, que metaforicamente abrigam seus interesses, desejos, intenções, sentimentos, eles retiram suas forças da crença em seus valores pessoais e na constância de seus esforços.
Seguros de si e firmes frente o desafio, a vitória fica assegurada.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS




MEMÓRIAS


Soube hoje do falecimento de um grande amigo. Amigo de infância, desses de todas as horas. Amigo daqueles que a gente sempre menciona quando conversa com alguém. Daqueles que nos valemos como parâmetro quando medimos a nossa interação com os outros.

Morávamos distantes, nestes últimos anos, mas nunca passaram mais de dois dias sem que nos falássemos. Foram milhares de e-mails, de cartões postais, de faxes e telefonemas. Foram muitas as visitas dele com a família à minha casa. Foram viagens juntos e anotações sobre lugares, cidades e países escritas a quatro mãos. Nos maravilhamos, simultaneamente, com belezas muito além do que nossos guias de viagem anunciavam. Em ocasiões, demos boas gargalhadas das "ciladas" em que nos metemos. Temo, agora, te-lo incomodado além da conta com minhas ranhetices, teimosia, reclamações estapafúrdias ou de não ter-lhe dado mais atenção quando sentia alguma angústia camuflada, em suas palavras. Já não há mais tempo, nem sentido em querer corrigir o que sempre pareceu perfeito.
Seu filho mais velho, que é meu afilhado, ligou-me antes de amanhecer o dia. O som do telefone, àquela hora, não era bom sinal e vinha a arrematar uma noite mal dormida. Calmo, ele me contou que o pai morreu dormindo, sem nenhum aviso, nenhuma forma diagnosticada de doença, sem ter comunicado nenhuma dor ou alteração. Morreu como viveu: sem incomodar, sem chamar atenção, sem provocar sofrimentos desnecessários.
Desliguei o telefone, depois de falar com minha comadre e os outros filhos, e, sem saber o que fazer ou onde fixar meus acelerados pensamentos. Caminhei até a janela e olhei aquela luz mágica das manhãs ensolaradas. E numa fração de segundo lá estávamos, crianças e amigos que sempre fomos, brincando nas árvores do quintal lá de casa, aborrecidos numa viagem de férias dentro da Rural Willys do seu pai, correndo, pela primeira vez, de encontro às ondas do mar, assistindo a matinê de domingo num cinema que nem mais existe e torcendo que a cavalaria chegasse a tempo de salvar a diligencia dos impiedosos peles-vermelha.

Não sei bem porque, mas pensei em pegar uma única carta no deck de tarot que fica sobre a escrivaninha. Talvez quisesse, naquele instante, uma palavra de consolo a ser dada por uma imagem. Que houvesse algo ou alguém enchesse de sons o silencio desta manhã e que ecoassem, preenchendo o vácuo onde estava mergulhado. Que, se não mais cartas, mensagens, telefonemas, eu ao menos encontrasse uma forma de não perder o contato com meu amigo que partira sem dizer adeus. Mas, confesso que não tive coragem. Temi não surgisse o 6 de Copas, aquela carta que é uma explícita mensagem de que o passado é apenas um tempo de verbo que conjugamos para não confundir a memória.




Deixei o tarot de lado e fui olhar, mais uma vez, fotos nossas em tempos e lugares diversos. Reli seus últimos e-mails e busquei umas anotações que ele redigira em algumas das páginas de um livro que havia lido e me enviara. Decidi escrever para a sua família, lembrando nossa amizade e reforçando o meu mais profundo amor por todos eles. Agradeci a herança que ele, sempre tão generoso, me legara: não apenas as lembranças de um grande amigo, fiel e sempre presente mesmo quando grandes distâncias nos separavam, mas também toda uma família que eu aprendi a amar como minha.
Expliquei-lhes que não estarei presente ao seu enterro. Justifiquei que não chegaria a tempo, que irei nos próximos dias para estar com eles. Mas isso não é toda a verdade.
Teria que viajar para ir de encontro a um ritual de despedida, mas como despedir-se de quem vive para sempre criança, brincando num quintal guardado na memória?

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O TIRO PELA CULATRA





O TIRO PELA CULATRA
Uma importante companhia italiana, que produz máquinas para fazer café expresso, destaca-se pela qualidade e criatividade das suas campanhas publicitárias. Há algum tempo lançaram uma em que associavam seu produto aos heróis das histórias em quadrinhos. A que usei como ilustração traz a Mulher-Gato, das histórias do Batman, surpreendida por um... gato! E, pela atitude de ambos, a surpresa, além de naturalmente inesperada, é bastante ameaçadora.
Ela, que certamente havia invadido o território do felino, busca esconder-se, até encontrar uma saída para a situação, usando uma xícara de fumegante café como escudo. O gato verdadeiro, por sua vez, tem como vantagem o tamanho e o fato de ter conseguido surpreender a presa antes que ela o percebesse e fugisse.
A situação toda transpira à tensão, constrangimento, expectativa, argúcia e espanto. A Mulher-Gato parece sobressaltada com a presença do animal. Ele, por sua vez, mantém a postura de ataque, o olhar concentrado e quase hipnótico e uma falsa serenidade, tão própria de quem está acostumado a caçar, utilizando-se de armadilhas e estratégias para conseguir seu intento.



No tarot, o 7 de Espadas pintado por Pamela Coleman Smith remete ao mesmo conceito imagético que a imagem acima busca retratar: um indivíduo bastante estranho, com uma atitude ladina, carrega 5 espadas, removidas, provavelmente, de uma tenda. Sua intenção parece ser a de desarmar o inimigo, entretanto seu plano parece fadado ao insucesso, visto não ter conseguido carregar todas as espadas. Pior é que uma delas, das deixadas para trás, poderá ser usada pelo seu oponente, por aquele que foi tapeado, iludido, roubado, para ferir mortalmente o incompetente ladrão.
O que chama a atenção nas duas imagens que ilustram este texto, e cuja realização os separa por um século, é o fato que, tanto ao ladrão de espadas quanto à Mulher -Gato, faltaram disciplina e planejamento. A atitude de ambos é claramente amadorística, desorganizada, deixando-os desprevenidos, sem um plano-B, sem um contra-ataque preparado. Ambos foram impetuosos e inconseqüentes.
Essa carta simboliza uma forma de esperteza que costuma resultar num "tiro pela culatra". Ao invés de usar o cérebro (naipe de Espadas) para resolver determinada situação, a pessoa opta pela "lei do menor esforço", agindo intempestivamente, desprogramada, contentando-se com os sofríveis resultados das tentativas, ao invés de investir na solidez e garantia da obtenção da totalidade do produto final.

A atitude da figura na carta do tarot é bastante suspeita, favorecendo uma imagem de corrupção, de espionagem, mentira, intriga, que pode ser utilizado para justificar a simbologia desse arcano menor. De qualquer forma, fica claro que o sucesso da empreitada é, tão somente, parcial pois ele não consegue se apossar de tudo o que pretendia.
Na fotografia maior, nem mesmo a esperteza, habilidade, e destreza da Mulher-Gato a fazem imune ao plano descuidado que utilizou para surrupiar o que lhe interessava. Ainda que buscasse ocultar-se atrás da xícara, sua tática não resultou em bons resultados e, muito provavelmente, cairá na armadilha que ela mesma armou.
Num outro ponto de vista, provavelmente o do gato e das pessoas que tiveram suas espadas roubadas, o 7 de Espadas nos lembra de não permitirmos que obtenham vantagens injustas sobre nós. Alerta para que se cuide daquilo que se possui, de se manter firme em suas convicções e não fazer aquilo no que não se acredita. O que não se deve subestimar é que a desconfiança e a manutenção de segredos, quando exagerada, pode conduzir muito mais ao isolamento do que à um possível ideal de segurança.
Precaver-se não significa tornar-se paranóico.

Alex Tarólogo

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

TÉDIO






TÉDIO

Basta um simples olhar na pintura acima para que a idéia de insatisfação se evidencie. Ainda que tudo possuam, que sejam bem sucedidos, que estejam abrigados e protegidos, a rotina tomou conta do ambiente e das vidas desses personagens, tirando-lhes a alegria, o interesse e a disposição.
Nem todos as possibilidades que se perfilam, na imagem da metrópole sobre a mesa, pronta para ser "degustada", vivenciada e experimentadas de todas as maneiras, com acesso livre, nada disso lhes retira a apatia das almas.
Tudo é silêncio nesse espaço onde nada falta, seja a capacidade de reconhecer e criar o belo (os quadros na parede), ou a segurança material (a mesa e as cadeiras), ou até o conforto do aspecto doméstico (o gato). Falta algo. Falta motivação. Falta uma razão que os façam abandonar o estado letárgico em que se encontram, acomodados, porém desgostosos, melancólicos, e os traga de novo para a vida. A cadeira vazia, como que a espera de algo ou alguém, é o símbolo da ausência de interesse que essas pessoas vivem.




O 4 de Copas, na imagem criada para o tarot de Waite por Pamela Coleman Smith, interpreta esse estado de fastio na figura do jovem sentado sob uma árvore, de braços e pernas cruzadas, completamente fechado em si mesmo, olhando catatonicamente para as 3 taças perfiladas à sua frente. Ele as tem. Ele já as conhece. Delas ele provou o conteúdo e agora, se não as ignora ou rejeita, também não mais as aprecia. Tudo virou lugar-comum.
Encostado ao tronco da árvore, cuja seiva encontra-se em contínua circulação, é como se buscasse sentir que suas emoções também voltassem, pelo estímulo do contato, a fluir.
O tédio é a estagnação dos sentidos e, portanto, sinaliza um período de descontentamento, falta de motivação, desinteresse e distração. Tudo é lento e, por vezes, doloroso, pois existe uma enorme passividade a ser vencida.
O que ambas as figuras também têm em comum, cada uma à sua maneira, é que esse estado de "pouco caso" nos distrai de oportunidades e possibilidades que estão acontecendo e nos sendo constantemente oferecidas. Na carta do tarot, o rapaz parece incapaz de se aperceber que uma nova taça, plena de novas emoções e motivos para despertar seus sentidos, está-lhe sendo oferecida pelo Universo. Na pintura, com seus olhares fixos na noturna e nublada cidade que se assenta sobre a mesa, perdem de vista a cidade real, ensolarada e cheia de vida que estaria ao seu alcance, bastando que olhassem para a janela. 
Novos desafios, novas chances, nova descarga de adrenalina, novos interesses estão disponíveis, mas é necessária a vontade de abandonar o estado de aprisionamento, de isolamento, de solidão, de falta de perspectiva, de dissabor. É preciso dar, novamente, uma chance à alegria e ao prazer, que já estão disponíveis no próprio cotidiano, bastando permitir-se sentir.

Alex Tarólogo

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