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sexta-feira, 3 de junho de 2016

JULGAMENTO






JULGAMENTO

Pois é. Esse anjo, com asas de penas não tão alvas e apoiado num caduceu, mais parece um Hermes "grunge" do que a séria e bem mais celestial figura do ser alado do tarot de Marseille. Hermes ou Gabriel, não importa, ambos são anunciadores de que algo importante está acontecendo.

A carta do Arcano XX, o Julgamento, remete `a ideia que fazemos do Julgamento Final, aquele prenúncio cristão do fim dos tempos, quando os mortos ressuscitarão para serem, junto aos vivos, julgados. Esse divino tribunal decidirá quem irá sentar-se junto ao Deus Criador e os demais, os infelizes que amargarão a eternidade no fogo dos infernos. As sentenças, naturalmente, dependerão exclusivamente de como cada um conduziu-se em sua existência terrena.

No tarot esse "julgamento" é pessoal, diferente daquele absolutamente racional proposto pela carta da Justiça. Neste, as variantes, a condição cármica de cada indivíduo é considerada e influenciará no resultado. É uma revisão da vida, considerando-se o processo e o grau de desenvolvimento obtido através das escolhas realizadas, das transformações sofridas e do percurso percorrido até o momento atual. Sim, porque, para o tarot, não há que se esperar pelo fim dos tempos para reavaliar-se. Esse exercício do acompanhamento do amadurecimento, em todos os sentidos da existência, é algo que pode ser feito a qualquer tempo.

Reavaliar, revisar, repensar, rever, reconsiderar, refletir, recuperar, são verbos intimamente ligados ao Julgamento proposto pelo Arcano XX. É olhar para traz e ver como foi o desenrolar da própria história. Consiste em levar em consideração que qualquer processo evolutivo implica numa melhoria, num lapidar, numa mutação para algo melhor, mais adequado, melhor preparado e adaptado. Considera-se, nesse tribunal, todos os atos praticados e, naturalmente, todas as conseqüências.

De quando em quando o anjo mensageiro se faz ouvir na labiríntica consciência de cada um de nós. Assim como as trombetas lembram os muçulmanos que é hora de orar e, portanto, elevar o pensamento além das fronteiras do aspecto material da vida, o Arcano XX alerta que é chegado o tempo de refletir se o percurso está correto. Se fazemos uma revisão veicular para nos garantirmos de que o carro está em condições de enfrentar as distancias e possíveis problemas da viagem, por que não fazer essa mesma "revisão" com a nossa pessoa? Por que não nos assegurarmos que estamos com os instrumentos certos, a experiência e o preparo necessários para continuarmos nosso caminhar, reavaliando o nosso trajeto e como foi o nosso desempenho até aqui?




Voltando a observar os detalhes da figura no alto desta página, é muito fácil perceber que todos os seres humanos são representados pelo mesmo personagem encapuzado, porém em situações distintas, como se na ilustração encontrássemos todos os momentos, até a presente data, da vida desse personagem. É como se fosse um filme da sua vida, porém num único fotograma, onde todas as suas acoes pudessem ser vistas ao mesmo tempo e em conexão com as demais. Diferente da ideia da Justiça humana, que considera nossos atos de forma mais compartimentada, no Julgamento o processo da existência é visto como um todo.

O gato que se enrosca aos pés do anjo pode muito bem estar representando a ressurreição, o voltar novamente `a vida plena, que é concedido a cada um que permite-se ouvir a voz da consciência, ou, mas literariamente, o chamado do anjo. Afinal, como diz o dito popular, 7 vidas tem os gatos. Disse Jesus a Pedro, de acordo com os evangelhos, que dever-se-ia perdoar(-se) 7 vezes 7, zerando a cada vez a culpa dos erros passados exatamente porque nos reconhecemos, confessionalmente, estarmos arrependidos, comprometendo-nos moralmente nunca mais comete-los e nos utilizarmos dessa experiência como um salto qualitativo em nosso crescimento espiritual.

Hermes, mensageiro dos deuses, ou Gabriel, o porta-voz de Deus, não faz nenhuma diferença, pois o que importa, em verdade, é que sejamos capazes de, ouvindo o sinal de alerta, sermos, nós mesmos, juízes dos nossos atos e intenções. Importante seria deixarmos de lado a fria e implacável espada da Justiça humana e podermos, reconhecendo nossas falhas, nos perdoar e renascer para uma nova chance, uma nova etapa, uma outra oportunidade de vida sob os auspiciosos e acolhedores raios de luz emanados dos céus. O final dos tempos ocorre a todo instante, pois o momento seguinte é sempre de renovação. O que chamamos de amanhã, de futuro, acontece no instante seguinte em que eu termino de digitar esta palavra. O Julgamento é um chamado `a consciência para que nos lembremos que renascer é uma constante necessária no longo processo da nossa evolução espiritual.

Alex Tarólogo

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terça-feira, 22 de março de 2016

RUÍNA



 
Essa foto do filme “M, o Vampiro” (1931), uma das obras primas do Expressionismo alemão do diretor Fritz Lang, mostra o momento em que o personagem principal do filme, um serial-killer, é identificado pela população.
Os dedos acusadores, incriminando o suspeito, tornam ainda mais evidente a expressão de total desamparo e desespero do ator Peter Lorre. O “vampiro” foi, finalmente, após uma trilha de crimes cometidos contra as crianças de Dusseldorf, desmascarado. Em seu rosto, um rictus de horror que muito revela sobre seu caráter, como da tomada de consciência das consequências de seus atos.
Não mais mentiras, disfarces, subterfúgios. A hora da verdade é chegada. Esse assassino pode ter enganado a muitos, durante muito tempo e isso pode te-lo transformado num arrogante matador. Entretanto, mesmo que tardia, a verdade é algo da qual não podemos escapar totalmente e, no caso desse personagem, a foto acima retrata a sua queda.
Nada mais poderá salvá-lo. Todas as suspeitas se confirmaram e provas concretas foram coletadas. Não há mais condições para álibis ou novas mentiras. O rastro de seus crimes e o acreditar-se mais esperto e inteligente que todos os demais, foram a sua própria armadilha. Agora é o momento em que o Ego é reduzido à nada.



A pintora Pamela Colman Smith, no começo do século passado, criou uma imagem muito dramática para a carta 10 de Espadas do tarot do Waite. Nela, uma figura humana está prostrada ao chão com 10 espadas cravadas em suas costas. É a morte moral, do respeito e aceitação sociais, do orgulho, do Ego. É o fim. Há que reconhecer ter perdido todas as batalhas, ter sido vencido em todas as suas tentativas de impor-se. Não há outra saída a não ser entregar-se, reconhecer a derrota e, como nada mais há para perder, recomeçar a construir-se, agora sem ilusões, sem fraquezas, sem preconceitos, com novas crenças e valores.

O “vampiro”, também, foi derrotado pela luz, pela claridade e transparência da verdade. Seus atos escusos foram expostos, inclusive a si próprio. Ele, que os cometia protegido dos outros, e da sua consciência, nas sombras da noite, tem nos dedos acusadores que apontam em sua direção como que raios de luz a revelar-lhe o quão errado estivera até então. É chegado o tempo de sofrer as consequências dos erros cometidos, resignar-se, curvar-se diante das evidências e, na medida do possível, reerguer-se, regenerar-se, curar suas feridas.
Ambas as figuras, tanto no fotograma do filme quanto na carta, estão sem saída. Um está “contra a parede”; o outro, “derrubado”. Os dois: vencidos, derrotados.
O que cada um foi ou representou, acreditou ou cometeu, está morto e, como tal, dá lugar para o novo. Pior do que está, não vai ficar. É o “fundo do poço” e, como tal, só lhes sobra subir pois, descer mais, é impossível.

Alex Tarólogo

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