segunda-feira, 3 de outubro de 2011

TÉDIO




TÉDIO

Basta um simples olhar na pintura acima para que a idéia de insatisfação se evidencie. Ainda que tudo possuam, que sejam bem sucedidos, que estejam abrigados e protegidos, a rotina tomou conta do ambiente e das vidas desses personagens, tirando-lhes a alegria, o interesse e a disposição.
Nem todos as possibilidades que se perfilam, na imagem da metrópole sobre a mesa, pronta para ser "degustada", vivenciada e experimentadas de todas as maneiras, com acesso livre, nada disso lhes retira a apatia das almas.
Tudo é silêncio nesse espaço onde nada falta, seja a capacidade de reconhecer e criar o belo (os quadros na parede), ou a segurança material (a mesa e as cadeiras), ou até o conforto do aspecto doméstico (o gato). Falta algo. Falta motivação. Falta um motivo que os façam abandonar o estado letárgico em que se encontram, acomodados, porém desgostosos, melancólicos, e os traga de novo para a vida. A cadeira vazia, como que a espera de algo ou alguém, é o símbolo da ausência de interesse que essas pessoas vivem.




O 4 de Copas, na imagem criada para o tarot de Waite por Pamela Coleman Smith, interpreta esse estado de fastio na figura do jovem sentado sob uma árvore, de braços e pernas cruzadas, completamente fechado em si mesmo, olhando catatonicamente para as 3 taças perfiladas à sua frente. Ele as tem. Ele já as conhece. Delas ele provou o conteúdo e agora, se não as ignora ou rejeita, também não mais as aprecia. Tudo virou lugar-comum.
Encostado ao tronco da árvore, cuja seiva encontra-se em contínua circulação, é como se buscasse sentir que suas emoções também voltassem, pelo estímulo do contato, a fluir.
O tédio é a estagnação dos sentidos e, portanto, sinaliza um período de descontentamento, falta de motivação, desinteresse e distração. Tudo é lento e, por vezes, doloroso, pois existe uma enorme passividade a ser vencida.
O que ambas as figuras também têm em comum, cada uma à sua maneira, é que esse estado de "pouco caso" nos distrai de oportunidades e possibilidades que estão acontecendo e nos sendo constantemente oferecidas. Na carta do tarot, o rapaz parece incapaz de se aperceber que uma nova taça, plena de novas emoções e motivos para despertar seus sentidos, está-lhe sendo oferecida pelo Universo. Na pintura, com seus olhares fixos na noturna e nublada cidade que se assenta sobre a mesa, perdem de vista a cidade real, ensolarada e cheia de vida que estaria ao seu alcance, bastando que olhassem para a janela. Novos desafios, novas chances, nova descarga de adrenalina, novos interesses estão disponíveis, mas é necessária a vontade de abandonar o estado de aprisionamento, de isolamento, de solidão, de falta de perspectiva, de dissabor. É preciso dar, novamente, uma chance à alegria e ao prazer, que já estão disponíveis no próprio cotidiano, bastando permitir-se sentir.


Alex Tarólogo
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

PREOCUPAÇÃO




PREOCUPAÇÃO

A fotografia acima é a síntese dos muitos problemas enfrentados por todos os portadores de deficiências físicas: o descaso generalizado em relação às suas necessidades.
Estar impossibilitado de locomover-se com as próprias pernas e deparar-se, como na foto, uma escadaria, é mais do que um obstáculo a ser enfrentado, mas o reconhecimento que a sua situação não merece o mesmo apreço que a das demais pessoas. É ser marginalizado pela sociedade instituída por não estar "em acordo" com o que ela considera certo, correto, representativo.
O cadeirante, na imagem, não tem acesso ao que pretende porque as demais pessoas, intencionalmente ou não, não levaram em consideração a sua condição ao planejarem a escadaria. E, pelo tamanho da mesma, é como se ali estivesse para lembrá-lo que aqueles que não estão em concordância com os padrões estéticos, econômicos ou culturais de um determinado momento histórico, serão punidos por isso, vetando-lhes atingirem seus objetivos.





A artista plástica Pamela Coleman Smith, ilustradora do tarot do ocultista Arthur E. Waite, criou para o 5 de Ouros uma imagem forte, onde a idéia de ostracismo, exílio, abandono, descaso, injustiça social é evidenciada. As duas figuras que perambulam pela rua, sob uma nevasca, passando num cenário urbano onde não há uma porta sequer onde possam pedir ajuda e abrigo, foi a maneira pictórica que a artista encontrou para representar a noção de rejeição, de falta de apoio social que os dois caminhantes enfrentam. Um deles, deficiente, utilizando-se de uma muleta (a incapacitação física) e com uma bandagem a lhe envolver a cabeça (a doença mental), com um sino pendurado ao pescoço, para, de antemão, anunciar a inconveniência da sua presença, indigna e inaceitável. A outra figura, feminina, envolve-se em panos rotos e caminha descalça pela neve, num evidente estado de miséria e privação (o colapso do aspecto material). Ambas caminham sob uma janela, onde um grande vitral com o desenho de uma "árvore da vida" formada por cinco pentáculos, é iluminada do seu interior, como que a nos lembrar que o abrigo, a segurança, o otimismo, as possibilidades, o suporte social ou religioso encontram-se bem guardados, protegidos, cultuados, porém inacessíveis aos que não fizeram jus (em que tribunal?) em merecê-los.
A idéia de injustiça permeia essa carta, que, provavelmente será reparada na próxima, o 6 de Ouros. Enquanto isso, as pessoas continuam a passar pelas calçadas abarrotadas de mendigos, enjeitados, doentes, deficientes, e procuram de todas as maneiras ignorar o que está em seu campo de visão. É como se, recusando-se a ver e concientizar-se de que há insegurança, carência, impotência, doenças e todas as demais formas de privação, elas deixassem de existir ou as tornasse imunes aos problemas e preocupações.
Ainda que esse problema que assola nossas cidades deva ser algo a ser resolvido dentro da esfera governamental, é preciso que se estabeleça a responsabilidade individual, já que todo governo eleito é a representação do nosso caráter, do nosso estágio evolucionário e das nossas ideologias, crenças e aspirações.


Alex Tarólogo
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

LOUCO




LOUCO

Um homem flutua, segurando balões de gás, sobre as ruas de uma metrópole. Fantástica imagem! A cidade, em seu desenho retilíneo e preciso, na impessoalidade de suas formas, no movimento constante dos carros que trafegam suas ruas e avenidas transportando seus habitantes, na claridade ainda acinzentada do amanhecer (ou será anoitecer?), na altura ciclópica de seus arranha-céus, parece alheia ao homem que flutua por seu céu.
Quem é, o que faz e pensa e para onde vai esse homem, chapéu na cabeça e maleta na mão? Um anjo disfarçado de executivo? Um inventor maluco? Um novo super-herói? O que motiva alguém a lançar-se nas alturas, confiando apenas numa meia-dúzia de balões e ao sabor dos ventos? Quem é esse ... Louco?
Sem número, zero ou 22, a carta do Louco é aquela que simboliza o Tudo e o Nada a um só tempo. Por paradoxal que pareça, ela é todas as outras 21 cartas dos Arcanos Maiores, e nenhuma delas também. É a sabedoria contida em cada uma das lâminas do tarot, adquiridas através da experiência em viver o significado dos seus símbolos, e, no mesmo momento, ela é a tolice de quem ainda vive desconhecendo essas virtudes e sua importância para a própria evolução.
Nas cartas encomendadas pelo ocultista Waite à artista plástica Pamela Smith, essa figura é de um jovem dinâmico, de largos passos, vestido com uma túnica verde florida (a lembrar o Homem Verde, comum em outras mitologias), um chapéu decorado com uma pena que aponta para o céu, e, finalizando, um bastão que prende uma pequena trouxa sobre um ombro e uma rosa branca numa das mãos. O dia ensolarado e a claridade do ar do ambiente montanhoso, tão afastado de onde os homens vivem, atraem seu olhar para o alto, e, ignorante do fato de que está a um ou dois passos de um precipício, caminha destemido para ele. Como companhia, apenas um cão, que percebendo o que está para acontecer, procura evitar que ele salte no vazio, mordendo-lhe o calcanhar.




Essa é a típica figura da espontaneidade, da despreocupação, da extravagância, da coragem e destemor que só os muito loucos ou os muito sábios possuem. Há que acreditar-se muito e ter uma inabalável fé na proteção concedida pelo Universo para intentar algo, aparentemente, tão absurdamente irracional. Mas é exatamente isso que o Louco do tarot está por fazer: arriscar-se. Dar um salto mortal, sem rede de proteção.
O Louco, na taromancia, sempre foi visto como o rebelde, aquele que se sente desajustado diante de uma situação estabelecida; é a pessoa ou o evento que fogem à norma, ou o ingênuo, o inocente, o inexperiente que ainda tem muito a aprender. Ele costuma ser entendido como alguém despreocupado, sem planos para o futuro, sem compromissos com o passado, sem preocupações com o presente. Alguns lhe enaltecem a personalidade, forte, única, pois confia em si e acredita em tudo o que faz. Outros o vêem como algo misterioso, que não consegue ser explicado racionalmente e que, portanto, ameaça a estabilidade daquilo tudo que consideramos normal, apropriado, natural, evidente, seguro, confortável, fácil, óbvio, legal, verdadeiro, estabelecido, conveniente, etc.
Comparando as duas imagens, o que ressalta é que ambos estão prontos para "caminhar no ar", dar um salto para uma nova fase, um novo tempo, um outro lugar, uma nova forma de pensar, uma nova etapa da vida. A possibilidade de aventura contida nesse gesto, nesse passo rumo ao abismo, nesse flutuar por sobre o mundo como o vemos e compreendemos, é a grande qualidade desse Arcano. Sua mensagem é ser autêntico e, para tanto, não temer infringir convenções, abandonar velhos métodos, deixar de lado o medo do inesperado, aceitar as surpresas e permitir-se começar algo novo (mesmo que seja novo apenas para si mesmo), que ainda não tenha sido testado.
Se não houver uma dose de infantil ingenuidade (os balões de gás), de pureza de alma e intenções (a rosa branca), de uma sensação de absoluta liberdade (voar pelo céu, estar no alto das montanhas), de não-conformismo (a extravagância no voar sobre a cidade, de saltar por sobre o abismo), de busca de novas experiências (a mala e a trouxa são pequenas e muito pouco podem levar daquilo que já conseguiu), se nada disso houver, esse homem ainda não está preparado para se iniciado nos mistérios da vida, e que as 22 cartas do tarot revelam.
O Louco é aquele que está aberto a tudo o que o futuro oferece, sem preconceito, sem preocupações, pronto a envolver-se com o inesperado, sentindo-se impelido a lançar-se a grande aventura que Viver por um chamado de fé e absoluta confiança no Universo, crente que tudo vai dar certo.
E lá segue o homem que voa segurando-se aos balões, flanando pela brisa que envolve a cidade, espírito livre, aproveitando cada inesperada oportunidade, buscando a si mesmo e encontrando-se em cada novo aprendizado, em cada nova experiência.

Alex Tarólogo
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

SOFRIMENTO




MELANCOLIA

Não há dúvidas, olhando a foto acima, sobre o tipo de sentimento que essa imagem busca expressar. Há, nesse coração preso a um velho poste por voltas de arames farpados, um retrato de dor, sofrimento, arrependimento, desilusão. Tal qual a coroa de espinhos sobre a fronte do Cristo, esses pontiagudos pedaços de metal não só aprisionam e ferem impiedosamente, mas desqualificam o valor do sentimento representado pelo rubro coração.
Essa imagem em muito se assemelha à do 3 de Espadas, uma carta que quase sempre prenuncia tempos bastante sofridos e pesarosos, onde mágoas e lágrimas costumam juntar-se a sentimentos bastante funestos em relação à vida. Como todas as demais cartas do naipe de Espadas, o aspecto que tratam é a nossa mente racional, nossa capacidade de observar, dissecar, analisar e chegar a um resultado. É a lógica, a razão, o aspecto matemático, científico, a capacidade de julgar e tirar conclusões. E, na carta de número 3 desse naipe, temos a clássica ilustração de Pamela Smith para o tarot de Waite, onde 3 espadas atravessam um coração que flutua sob a chuva que cai de cinzentas nuvens. Quadro bastante desolador...
Assistindo ao filme "Melancholia", do Lars von Trier, a falta de perspectivas, de possibilidades, de futuro, de significação e objetivo da personagem principal, que se sente incapaz de amar, de compartilhar, de valorizar as relações ou o fruto do trabalho, de obter alguma forma de prazer, já que nada faz sentido, levou-me a considerar essa carta como uma síntese do seu vazio existencial. Ela, de alguma forma, identifica que não há nada a ser feito para impedir a catástrofe anunciada no filme. Que a Natureza é muito mais poderosa e implacável do que a idílica maneira que a queremos ver. Diante do inevitável, ela toma, muito dolorosamente, consciência de si, do que e de quem a rodeia, e da insignificância e inutilidade de tudo. É a razão filtrada pela emoção, o sofrimento advindo daquilo que se tem conciência.
Melancolia é o nome do planeta que provoca esse estado de espírito na personagem e reflete o sentimento único que lhe resta. Uma languidez, um torpor, um estado de inapetência, de absoluta falta de prazer em qualquer atividade ou sentido. Nada a motiva, nada a agrada, nada tem sabor. Um estado depressivo se instala e é vivenciado, em seus diversos aspectos, por todos os demais personagens do filme.




Diziam os antigos que o planeta Saturno influenciava a secreção da bílis negra, um dos 4 humores que regulavam a saúde física e mental dos seres humanos. Esse componente, em desequilíbrio, induziria a pessoa a um estado chamado de luto. Não o sentimento comum de luto pela perda de entes queridos, mas um profundo desânimo, generalizado, sem causa definida. Um "luto narcisista", segundo Freud, quando o indivíduo enluta-se por si mesmo, por reconhecer sua incapacidade de amar, de expressar sentimentos e emoções, de realizar algo de valor para si e para as outras pessoas, por não conseguir entusiasmar-se por nada ou ninguém, quando o viver passa a ser tão inútil, fútil e sem significado.
Oracularmente, o 3 de Espadas prenuncia tempos de grandes desapontamentos, de sentimentos de pesar dignos, em sua exaltação, aos mais trágicos libretos operisticos. Há algo de profundamente melodramatico nessa carta. Pode, inclusive, ser uma grande desculpa para não encarar a vida de frente, limitando-se ao romântico e dramático papel do amante enlutado.
As espadas cravadas no coração simbolizam que a perspectiva que estamos tendo da situação é enganosa, pois filtra os reais aspectos lógicos e racionais pelo âmbito turbulento, e nem sempre transparente, das emoções.
No século XVIII, o poeta inglês Leigh Hunt escreveu algo que muito bem descreve esse estado de alma:

"Afeto, igual à melancolia, aumenta insignificâncias; o primeiro vê corpos celestiais por um telescópio; o segundo vê monstros por um microscópio."


Alex Tarólogo
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

DERROTA



DERROTA

O fotógrafo conseguiu, nesse "tableau vivant", elaborada montagem que nos remete aos frisos dos chamados "arcos do triunfo", portais comemorativos às batalhas vencidas e aos feitos de seus soberanos e heróis, passar as mesmas qualidades de tirania, opressão, ameaça, rixa, desavenças, maus tratos, desonra, degradação e medo que encontramos nos significados da carta 5 de Espadas, no tarot.
Os personagens da cena ou estão exercendo um poder de coerção, subjugando os demais, destituindo-lhes de toda a dignidade e capacidade de resistência, ameaçando-os de extinção, ou então, são as vítimas, escorraçadas em seus cantos, depostas de sua valentia e orgulho, temerosas com os acontecimentos, desistindo de lutar o bom combate.
Todas essas características as vemos replicadas na imagem criada por Pamela Coleman Smith para o 5 de Espadas encomendado pelo ocultista Arthur Edward Waite para o seu tarot.
Em primeiro plano, um homem, com olhar irônico, segura 3 espadas, enquanto 2 se encontram caídas ao chão, como se lá estivessem abandonadas pelas outras duas figuras masculinas que se afastam, em direção ao mar. Nuvens cinzentas, ameaçadoras em seu formato pouco ortodoxo, cobrem o céu.




Esse é o tipo de carta que tanto pode ser aplicada, em seus significados, ao vencedor, como ao vencido. Ambos, afinal, estão vivendo o mesmo tipo de conflito. Assim como ela pode representar um momento em que estamos sós, sem ninguém para nos ajudar, num momento de derrota e humilhação, sentindo-nos fracos, abatidos, sentimentalmente derrotados, espiritualmente combalidos, essa carta também pode referir-se ao fato de estarmos na posição daquele que busca dominar, magoar, desestabilizar e finalmente destruir o outro. Encontramos esse tipo naquele que faz questão em ser um "Cruzado" de alguma causa, crença ou ideologia, sempre procurando, de todas as maneiras, impor sua "verdade" aos outros.
De qualquer forma, essa derrota deveria ser aceita de forma passiva, corajosamente, sem luta, sem rancor e com paciência, pois é algo que temos que viver, do qual não podemos fugir. Faz parte do nosso destino e, muitas vezes, é o resultado de atitudes ou hábitos auto-destrutivos, ou mesmo da falta de pensar melhor nas possíveis consequências que esses atos acarretam. Somos, em diversas ocasiões, motivados por simples falta de bom senso e humildade, a enfrentar batalhas já de antemão perdidas, de onde sairemos feridos, traumatizados, unicamente porque não soubemos aceitar nossas próprias limitações, reduzir o orgulho, desinflar o ego e desistir da luta.

E o que resta no campo de batalha, após essa luta onde todos, no fundo, são perdedores? Mágoas profundas, extensas cicatrizes, pensamentos mórbidos, sentimentos derrotistas, medo de tentar novamente e uma grande incerteza sobre o futuro.

Alex Tarólogo
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

EMPATE




EMPATE

A imagem de um prendedor de roupas, cada uma de suas partes de uma cor, como que dialogando entre si, pode ser comparada, em termos de simbologia, com o significado tarológico da carta do 2 de Espadas.
A figura pintada por Pamela Smith para essa carta do tarot do Waite, onde uma figura vendada (sem fazer escolhas óbvias, racionais, influenciadas pelas aparências), está sentada (não tem pressa, a situação é demorada e demanda ajustes) de costas para o mar e a noite enluarada (evitando deixar-se decidir de forma unicamente emocional ou intuitiva), segura duas espadas de igual forma e tamanho (problemas, opiniões, possibilidades, opções, idéias, ações, etc. iguais em conteúdo e conseqüências), também expressa um conflito.
É uma decisão a ser tomada para a resolução de um problema, porém envolvendo opções que possuem o mesmo peso e medida. Ou seja, fica-se entre a cruz e a fogueira. É um beco sem saída.
Interessante observar que a carta 2 de Espadas retrata um momento de aparente paz. Há um silêncio, uma inatividade, uma imobilidade bastante frustrante e constrangedora na imagem. As espadas cruzada sobre o peito da mulher não irão permanecer nesse forçado equilíbrio por muito tempo. Mas, tempo é o que ela precisa para poder optar com maior segurança. Então, sentada, alheia às suas emoções e evitando confrontar-se com a realidade, ela espera.




E aí surge uma possível analogia com a ilustração do prendedor de roupas. Sua função é a de segurar, prender, imobilizar a roupa enquanto ela seca. Não é ele o agente da ação, mas um coadjuvante indispensável. Sem ele as roupas voariam ao sabor do vento e, ao invés de secarem, se perderiam ou se sujariam novamente. Ele controla o tempo para que a ação de secagem aconteça, realizada pelo sol e pelas correntes de ar.
O 2 de Espadas sugere ambivalência, conflito de interesses e opiniões aguarda-se uma escolha definitiva. Um trégua ou um acordo podem estar existindo, entretanto a situação não está resolvida e o problema continua ali, esperando uma solução. Talvez seja chegada a hora de parar de procrastinar e agir, optar, decidir, escolher. Talvez, não. Pode ser que a figura da carta do tarot esteja aguardando, sem decidir-se, esperando que a situação se resolva por si mesma, por fatores externos, sem o seu comprometimento.
No desenho do pregador de roupa, ambas as partes são iguais e válidas, necessárias para o funcionamento do artefato, ainda que opostas, antagônicas. Mas ele, também, não decide como ou em quanto tempo a roupa deve secar. Fica lá, parado, prendendo a situação, aguardando que o clima e o tempo decidam como, quando e porque faze-lo. Enquanto isso, espera.

Alex Tarólogo
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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

SACERDOTISA



SACERDOTISA

O aparato na cabeça em forma de crescente lunar; o olhar de entendimento e mistério; a mão sobre a boca, num gesto de silêncio; a roupa em muitas camadas a transformar as formas do corpo; o cenário ao fundo, em dualidades como reflexos num espelho; a cor do piso a lembrar a cor das águas mais profundas; e a figura diabólica, a escapar-lhe dos vãos das vestes, com seu olhar de lascivos segredos... Tudo nessa personagem do teatro oriental se assemelha, a da Alma Mater, o Arcano II do tarot, a Sacerdotisa.
A polaridade das colunas da carta criada para o tarot do Waite pela artista plástica Pamela Smith está representada não só nos elementos duplos, espelhados, rebatidos, que compõem o cenário da peça, mas também na na composição dos atores, onde o masculino e o feminino, dia e noite, positivo e negativo, yang e yin, claro e escuro, subconsciente e racional, bem e mal, razão e intuição, espírito e matéria, fogo e água simbolizam o principio da duplicação, base de toda reprodução.
O saber, o conhecimento universal, aquele que abrange o passado, presente e futuro, os mistérios e os segredos do divino e do humano, tudo esta registrado na fluidica mente dessa figura, que se mantém reservada, silenciosa, distanciada dos apelos e das distrações do mundo, no cumprimento de seu dever sagrado de ser o arquivo do Tempo.
Na carta do tarot Rider-Waite, sua coroa, um adereço que representa as cíclicas fases da lua, da natureza, das marés, conecta duas romãs que estão bordadas no véu que separa e resguarda o Santo dos Santos, de quem ela é a guardiã natural. Unindo Chokmah a Binah, liga polaridades e deflagra todo o processo de criação. Mesmo a cruz de braços de igual tamanho nos remete à idéia de encruzilhada, de possibilidades idênticas, ainda que antagônicas. Nesse sentido, associa-se à Hécate, deusa que residia nas distantes profundezas dos infernos e cujo culto a associava à lua, aos infernos e ao mar. Deusa de 3 faces, representando, simultaneamente, a virgem, a mãe e a senhora, sua visão é abrangente, pois pode ver 3 lados ao mesmo tempo, ou seja: pode ver o que aconteceu no passado que possa estar influenciando os acontecimentos presentes, os quais irão resultar nos eventos futuros. Era cultuada nas encruzilhadas (podemos compreender o porque das oferendas feitas, ainda hoje, por seitas e religiões diversas, em cruzamentos e encruzilhadas), pelos viajantes, para que os poupasse dos terrores e perigos da noite. Alguns cabalistas e tarólogos lhe atribuem, por isso, o valor da letra Gimel (camelo), como uma referência aos poderes associativos da mente, visto que podemos viajar, em nosso subconsciente,para onde desejarmos. Aliás, a expressão "viagem" popularizou-se como maneira de referir-se à expansão da consciência provocada pelas drogas alucinógenas.




Bastante explícita e provocativa foi a inclusão, à figura da recatada e silenciosa vestal, o personagem de um demônio que, saindo de suas pesadas vestes, se enrosca a seus pés. Nossos segredos mais temidos, aqueles que preferimos esconder, ignorar, aquilo que nos envergonha, que tememos confessar e admitir, esses também compartilham a mesma região obscura do que chamamos subconsciente. Como tudo o mais que precisamos saber, eles também nos aparecem em sonhos, em insights, pressentimentos, de forma intuitiva. São parte da infinita coleção de imagens e saberes que todos vivenciamos e compartilhamos. A sabedoria é feita de todo tipo de conhecimento e todos nos são úteis, em algum momento, seja para tomarmos uma simples e corriqueira decisão, ou para evitarmos uma catástrofe. Basta permitirmos que a intuição se sobreponha ao intelecto e a nossa verdade interior emerge.
Se volto a comparar ambas figuras, a da foto e a da carta, me permito pensar que parte dos escritos no livro, ou papiro, que a Sacerdotisa do tarot segura, devam conter o que a imagem da figura diabólica da foto expressa. A dualidade, Boaz e Joachin, a virgindade essencial da Sacerdotisa e suas possibilidades, tudo parece-me bem ilustrado pelo conjunto híbrido da foto.
Afinal, a consciência do Eu Maior é poder reconhecer-se em múltiplas facetas, enquanto uno.

Alex Tarólogo
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