quarta-feira, 20 de julho de 2016

FORMADORES DE OPINIÃO

                                     

Se há uma expressão dúbia e que muito se aproxima do pejorativo surgida na ultima década, freqüentemente usada pela imprensa, é a "formador de opinião". Com certeza você já a leu ou ouviu, em algum lugar, referindo-se a alguém a quem, por melhor definição, algumas pessoas consideram uma evolução do antigo "palpiteiro".
Sempre que a ouço me vem à lembrança a imagem invertida do Hierofante, ou Papa, o Arcano V do Tarot. Aquela figura que se propõe a ser um "lobbysta", um intermediário entre o profano e o sagrado, entre os deuses e os reles mortais. Perigoso como ele só, se auto-intitula um intérprete daquilo que os demais, sem a sua ajuda, seriam incapazes de entender.
Evidentemente essa figura sempre existiu, travestido de uma maneira ou outra, em todas as épocas e culturas. Sempre necessitou-se de alguém mais esclarecido que pudesse dar voz àquilo que os menos preparados deveriam saber. Encontramos essa criatura encarnada como um venerando e sábio mestre, um respeitado guru, um profissional cujo conhecimento abrevia a evolução dos demais, um orientador disposto a transformar a jornada do outro no caminho mais curto ao que lhe é importante e necessário saber, alguém que consiga ter uma visão clara da evolução da humanidade e possa, através de apropriadas reflexões e normas, ajudá-lá nesse processo. Esse é o Hierofante em seu melhor aspecto, quando suas mais brilhantes características ou qualidades estão à disposição da melhoria de condição de vida de muitos.
Mas, quando o lado obscuro desse personagem projeta sua sombra, cuidado! Cai por terra todo o humanitarismo, toda a generosidade das valiosas informações e conselhos. Desaparece o arauto do divino e surge o déspota, o maquiavélico manipulador de informações e consciências, aquele cujo conceito do que seja ética é o que expressa sua particular forma de pensar e favorece seus mais obscuros interesses.
Bom, mas essa deplorável figura não existiria se não fosse criada e elevada a essa posição. Ela, para existir, carece de séquito, de robozinhos dispostos a executarem seus mandos ou desmandos. O respeito que ela inspira não foi conquistado por méritos, mas atribuída por seus eleitores. Ele, o Hierofante mal dignificado, ocupa o cargo e usufrui dos benefícios porque essa posição lhe foi outorgada por seus párias, por gente que faz dele uma ampliação daquilo que são.
Bloggers, Snapchatters, Youtubers agregam milhares, e até milhões, de seguidores exibindo... suas vidas, ou seja, a ida com o cachorrinho à petshop, o tutorial de maquiagem, o depoimento sobre a dificuldade em manter um relacionamento (no caso, o dela / dele), a emoção de viajar mesmo não sabendo bem o que está vendo, a importância vital em saber comprar um artigo de luxo indispensável na vida de qualquer ser humano, etc, etc. Quando o "Fenômeno" estava no auge de sua carreira como jogador de futebol, quantos homens deixaram-se seduzir pelo seu estilo "Pinduca" e rasparam os cabelos, preservando apenas aquele topetinho? Talvez seja por esse tremendo sucesso e aprovação de público que um enciumado inglês de nome Beckham lançou o corte moicano para uma legião de outros torcedores, ou não, que independente de terem cabelos, idade e porte adequados ao corte, identificaram-se de imediato com o charme metrosexual do ídolo. E o que falar do poder do merchandising televisivo, que impinge aos consumidores mais incautos, ridículos modismos através dos personagens das novelas e afins?



Deve ser muito constrangedor à pessoa chamada, ou auto-intitulada, "formadora de opinião" perceber que seus seguidores são acéfalos. Só quem não tem opinião alguma, compra, empresta, copia, adere e usa a do outro como se sua fora. Só aquele, incapaz de refletir sobre a opinião alheia, compará-la com outras opções, verificar-lhe a origem, validade, qualidade e saber adptá-la às suas necessidades e interesses, à sua realidade enfim, é quem irá aumentar o séquito do pretenso dono de uma opinião a ser copiada.
Sempre achei a história do Flautista de Hamelin muito próxima à descrição dessas pessoas, esses Hierofantes de araque, que por um grande trabalho de marketing pessoal, por interesses dos mais escusos de uma determinada facção, ou por servirem de pobre inspiração para aqueles que não tem nenhuma, também se contentam e vangloriam em ter uma procissão de ratos, ou de inocentes, tolas, inexperientes e incautas criaturas, por hipnotizados acompanhantes. Vítimas do encantamento produzido pelos dons e talentos do flautista, sempre utilizados unicamente em beneficio de seus interesses pessoais, sejam eles financeiros ou de vingança, elas se deixam arrastar, em multidão, às profundezas do rio, onde encontram seu trágico fim. Esse metafórico afogamento nas escuras águas está a simbolizar a desilusão, o arrependimento, os sentimentos traídos.
Para ser mais gráfico, é aquela sensação de ridículo que a gente sofre quando, revendo o álbum de fotografias (se é que ainda existe isso) reconhece-se, por exemplo, usando boina, cavanhaque e bigode, a la Che Guevara, longe das selvas, mas na luta corporal para conseguir ser atendido no dia da inauguração do MacDonald's de um Shopping Center qualquer. Ou ofuscando completamente o magricelo noivo e perdida entre metros e metros de tafetá, envolta por rendas e babados em intermináveis camadas , que só fizeram ressaltar um corpo muito mais necessitado de um bom nutricionista e muitas horas de academia.
Opinião se forma colhendo de muitas fontes, de diversas procedências, com muita reflexão, deixando sedimentar aos poucos, nunca se permitindo acreditar ter encontrado uma resposta absoluta. Opinião é algo próprio, pessoal, que nos define e qualifica. Não pode ser postiça, ou nos faz umas verdadeiras e incautas "Maria-vai-com-as-outras". Não deve ser imposta e nem pode ser inflexível. Opinião deve ser a expressão de uma verdade individual, que serve perfeitamente a quem a possui e emite, mas que só se aperfeiçoa quando confrontada com outras. Quando isso não ocorre, pode virar Ato Institucional.
Daí então, adeus opiniões pessoais, autonomia, autoconhecimento, e salve, salve o Hierofante da vez!
Alex Tarólogo
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sexta-feira, 15 de julho de 2016

PENDURADO





PENDURADO

O jogo “da forca” é aquele em que, a cada letra errada para formar uma determinada palavra, o jogador vai acrescentando mais uma parte ao desenho que o representa. O que ele não pode, ou deve, deixar que aconteça, é cometer um número de erros suficiente que seu avatar iconográfico fique completo. O pior é que essa figurinha enquanto vai sendo completada, pelos erros do jogador, vai sendo enforcada. O Jogo começa com a corda, a estrutura do cadafalso e a “palavra secreta”.
A foto acima tem muito dessa brincadeira. O indivíduo vai criando marcas nas paredes, que talvez representem os dias em que está encarcerado ou, mesmo, os seus erros. Enquanto isso, vai-se formando, membro a membro, a figura a ser enforcada. E, note-se, o próprio homem já está com uma corda no pescoço...

Quase todas as vezes que observo as diversas representações artísticas do Arcano XII, o Pendurado (que muitos, devido a uma tradução literal do nome inglês dessa carta, o chamam de Enforcado), penso em situação semelhante à da imagem acima. Tudo nele me lembra um tempo forçado de reclusão. Uma época em que nada progride. Uma ameaça que a presente situação pode ainda piorar...
Se a origem da carta está, ou não, ligada a punições, ritos de passagem, à desmoralização, isso é pouco perto da maneira explícita que ela costuma ser ilustrada.

Sem dúvidas, ficar pendurado por uma perna deve ser, antes de mais nada, algo altamente doloroso. Uma tortura. Além do fato de que seria necessário um grande preparo físico, talvez o de um atleta olímpico, para a própria pessoa conseguir flexionar-se de livrar-se da amarra. Ainda assim corre o risco de cair de cabeça.




Tem-se que considerar também o fato de que, imobilizado, o sujeito não tem condições de exercitar seu direito de ir e vir, o seu livre arbítrio quanto às opções de onde estar. Como se isso já não fosse o suficiente, ficar numa situação inversa aos demais expõe o indivíduo ao escárnio alheio. Torna-se motivo de chacota. Tem sua autoestima aviltada. O Ego reduz-se a uma sombra do que já foi.
Ninguém opta por esse tipo de situação de boa vontade ou porque assim o quer, a não ser, é claro, aqueles que vivem de fazerem-se de “pobres vítimas de um destino cruel, enjeitados por todos, frutos do desprezo de um deus cruel”. Normalmente, quando nos vemos nesse triste papel de Pendurados, é porque não tínhamos outra opção. Temos que vive-lo, em sua extensão, esperando que, ao menos, sua duração seja breve e que possamos descobrir logo a "palavra oculta", a razão do porque estarmos envolvidos em tal episódio, e nos safarmos da corda que vai, como no jogo da forca, se apertando em nossos pescoços.

Eu me pergunto se, enquanto passamos por situações que nos limitam a ação, nos sufocam, que nos obrigam a rever toda uma filosofia de vida, que nos forçam a esperar por resultados que parecem nunca acontecer, se realmente acreditamos numa recompensa qualquer para esse tipo de, digamos, tortura. Quase todas as ilustrações que conheço desse Arcano, acrescentam um halo de luz, numa referência quase explícita à divindade ou à iluminação interior, no pobre coitado que balança pendurado pelo pé. Isso para nos recordar, penso eu, que todo sacrifício nos redime, eleva, nos torna melhores e deles saímos mais sábios, experientes, preparados, com um outro olhar sobre tudo e todos.
Pode mesmo ser isso, e eu espero sinceramente que assim o seja.

Alex Tarólogo

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terça-feira, 5 de julho de 2016

EGO







Creio ser essa uma das imagens mais interessantes que eu já tenha visto onde o conceito da Torre, a carta de número 19 do baralho Lenormand, parece estar graficamente bem representada. Torres sabemos serem construções elevadas, verticais, fálicas, que visam proporcionar um distanciamento do chão e uma proximidade maior com os céus. Sempre verdadeiras demonstrações da tecnologia, coragem, arrojo e ciência de cada época da evolução humana.

Foram, e ainda são, observatórios astronômicos. Serviram para manter as chamas, ou luzes, que guiavam, a lugar seguro, os barcos e seus tripulantes quando as noites eram tão escuras que não lhes permitia seguir as estrelas. Foram construídas para proteção e ataque, permitindo enxergar ao longe o acampamento inimigo e suas manobras, bem como distanciar-se do alcance de suas armas, mas surpreendendo-o com ataques aéreos. Foram prisões, celeiros e cofres inexpugnáveis. Abrigaram Rapunzéis de todas as eras das tentações da carne, nem sempre com sucesso, dependendo do comprimento de suas tranças e do tamanho de seus desejos... Foram alvos especialmente escolhidos para abomináveis ataques terroristas, pois representavam o tamanho do poderio e do orgulho de uma nação. Finalmente, a de Babel, mais personagem bíblica do que uma construção real, entretanto um exemplo de como a pretensão do homem em vir a conhecer, e portanto, igualar-se a seu deus, pode acabar em confusão e ruína pessoal.

Vivemos em torres, em nossos apartamentos aglomerados verticalmente, dividindo um mesmo espaço onde, tantas vezes, não conhecemos sequer nosso vizinho ao lado. É a solidão da grande cidade, a solidão coletiva, aquela na qual buscamos viver numa colmeia, porém alheios aos demais que conosco convivem.
Quando nos justificamos sobre a necessidade da preservação da nossa intimidade, talvez estejamos confessando o enorme medo de, ao nos comparar com o outro, percebermos que não somos tudo aquilo que pensamos ser. Talvez busquemos celas onde possamos nos acreditar protegidos em nossa presumida superioridade, onde nos sentimos "reis e "rainhas" dos nossos domínios. Talvez nos isolemos cada vez mais por temermos que descubram que somos ratos que rugem, como o pequeno Mágico de Oz. Talvez...

Mas se concordarmos em ver a Torre como um abrigo temporário, um plano mais elevado, com muitos degraus e pavimentos, de onde podemos avistar com mais acuidade e na sua totalidade o horizonte que nos cerca, uma construção de grossas paredes que nos permitem ouvir o próprio silêncio, então estaremos nos referindo à busca da paz, através do isolamento que permite uma melhor reflexão sobre as virtudes que podem nos conduzir ao êxito da empreitada.




Ela pode ser vista como a capa que abriga o Eremita, protegendo-o em sua filosófica busca interior. Também pode ser uma declaração pessoal de coragem e determinação como na Força, marcando, confiante, sua envergadura e posição nesta existência. Não posso deixar de vê-la como o misterioso e imaterial templo que abriga os saberes da Sacerdotisa, ou a ponte que liga os conhecimentos entre o divino e o humano, representados pelo Hierofante. Ou, quem sabe, a masmorra onde o Diabo mantém aprisionadas nas correntes do egocentrismo, suas arrogantes e ambiciosas vitimas.

Volto a admirar a gravura e lá está ela, humanizada em suas formas, austera, independente e dominadora, solidamente fundamentada na desértica paisagem, olhando-me do alto, importante, superior, confiante, crítica, desafiadora.
Reconhecemos-nos de imediato, e nos saudamos. Ela, somos todos nós.
Eu, você, ele, nós... Torres.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

DIABO




DIABO

O que me intriga nessa ilustração é a idéia de drama, de condenação, de sofrimento, de dor e, também, de possível redenção.
A figura do homem preso a um espinheiro e envolto por uma potente serpente, cuja boca escancarada prenuncia mais dor, sofrimento e morte, tudo isso num idílico e florido cenário, talvez o bíblico paraíso perdido, é, para mim, um bom comparativo, em termos de simbologia, com o Arcano XV do tarot, o Diabo.

Afinal quem, ou o que, é o Diabo? Quem é essa figura que perpassa a história da humanidade provocando sofrimentos de todas as espécies? Que enorme poder é esse que consegue derrotar a tal perfeição da criação divina? Que espaço, que lugar ele ocupa dentro desse Todo onipotente, omnipresente, a quem chamamos, entre outros nomes, de Deus? Se Deus (ou o nome que preferirem chamar, ou não, ao criador de todas a coisas) está presente e ocupa todos os lugares, até mesmo porque Ele é o Todo, onde então reside aquele ou aquilo a que chamamos de Mal? Qual é o espaço deixado vago por esse Deus presente e preenchendo todos os lugares, no qual o Mal habita? No coração e na mente dos homens? Mas se somos a imagem e a semelhança de quem, ou o que, nos criou, então, por mera dedução, o Mal que em nós reside é decorrente dessa herança genética... Se há um vácuo deixado para ser ocupado por qualquer outra coisa, ou entidade, então cai por terra o conceito assumido da omnipresença, omnisciência e omnipotência divina. Ou não.

Mas, conceitos e discussões teológicas `a parte, pois o que nos interessa aqui é a discussão comparativa entre as imagens, seus símbolos e significados, basta olharmos para o alto da ilustração para vermos, mãos espalmadas num ato receptivo, o que poderiamos interpretar como as "mãos" de Deus. Deus, envolto em uma nuvem de alvas flores e representado graficamente por um gesto de acolhimento, paira acima da sua criação, pronto para estender-lhe, novamente, os benefícios do Paraíso recusado. Ainda que a humanidade possa caminhar pelo vale das sombras, enfrentando os perigos da noite da alma, temendo o abandono nas profundas prisões do sofrimento, mesmo assim, num estado mais elevado da sua consciência, existe algo capaz de libera-lo.

Só sabemos o que é sofrer porque também conhecemos o estado de alegria; compreendemos o que é estar doente pois podemos comparar com o que é sentir-se bem e saudável; temos a noção da extensão dos efeitos de uma guerra por entendermos os benefícios dos tempos de paz; podemos não saber explicar perfeitamente o sentimento do amor, porém estamos conscientes que ele não é a mera paixão. Vivemos entre opostos, entre luz e sombra, entre extremos. O tão buscado "caminho do meio" nada mais é do que compreender onde se situam os limites, as fronteiras entre o Bem e o Mal absolutos, entre o que denominamos Deus e Diabo.

Sem tentar reinventar a roda, poderíamos refletir a respeito do conceito de que Deus, o Bem, o Positivo, é
o lado Luz, o lado vivo e progressivo de tudo, enquanto que o Diabo é aquilo que O justifica, Sua sombra, seu oposto complementar, aquilo que não pode ser chamado de bom, mas o Mal, o Negativo, o Destruidor, sem o qual não poderíamos compreende-Lo.
O Diabo, representa o que é menos elevado na natureza humana. É nossa condição de cegos para a luz, para a verdade e, portanto, para a felicidade (Paraíso). É nossa incapacidade de, ignorantes que somos, reconhecer que podemos, por opção, escolher o oposto, decidir por aquilo que possa nos trazer o contrário do Mal que vivenciamos. É um aspecto menos evoluído da nossa capacidade de abstração, que nos impede de "erguer os olhos do chão", de deixar de focar apenas os aspectos materiais e imediatistas da existência e buscar um sentido muito maior para tudo o que fazemos e provocamos.

 
 


Se na representação do Arcano XV, na quase absoluta maioria dos tarots existentes, encontramos uma figura muito mais animalesca do que humana subjugando um casal, é mesmo para reforçar a idéia de que o Mal é algo que vive na escuridão, mais ou menos escondido (tudo vai depender das nossas opções...) dentro de nós. Quando a ele concedemos o devido poder, nos domina e escraviza, mantendo-nos prisioneiros nas trevas da ignorância, enclausurados nas profundas cavernas do nosso medo, do desespero, da aflição, da falta de fé, da dependência, da desmedida ambição material.
Impedidos de vislumbrarmos o seu oposto, que é a própria liberdade de melhores escolhas, nos tornamos mineiros encerrados na busca de uma pedra preciosa qualquer, qualquer coisa que possa pretender justificar tudo aquilo que deixamos de ser quando optamos em, apenas, ter.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

EMPATE





EMPATE

A imagem de um prendedor de roupas, cada uma de suas partes de uma cor, como que dialogando entre si, pode ser comparada, em termos de simbologia, com o significado tarológico da carta do 2 de Espadas.
A figura pintada por Pamela Colman Smith para essa carta do tarot do Waite, onde uma figura vendada (sem fazer escolhas óbvias, racionais, influenciadas pelas aparências), está sentada (não tem pressa, a situação é demorada e demanda ajustes) de costas para o mar e a noite enluarada (evitando deixar-se decidir de forma unicamente emocional ou intuitiva), segura duas espadas de igual forma e tamanho (problemas, opiniões, possibilidades, opções, idéias, ações, etc. iguais em conteúdo e conseqüências), também expressa um conflito.
É uma decisão a ser tomada para a resolução de um problema, porém envolvendo opções que possuem o mesmo peso e medida. Ou seja, fica-se entre a cruz e a fogueira. É um beco sem saída.

Interessante observar que a carta 2 de Espadas retrata um momento de aparente paz. Há um silêncio, uma inatividade, uma imobilidade bastante frustrante e constrangedora na imagem. As espadas cruzada sobre o peito da mulher não irão permanecer nesse forçado equilíbrio por muito tempo. Mas, tempo é o que ela precisa para poder optar com maior segurança. Então, sentada, alheia às suas emoções e evitando confrontar-se com a realidade, ela espera.




E aí surge uma possível analogia com a ilustração do prendedor de roupas. Sua função é a de segurar, prender, imobilizar a roupa enquanto ela seca. Não é ele o agente da ação, mas um coadjuvante indispensável. Sem ele as roupas voariam ao sabor do vento e, ao invés de secarem, se perderiam ou se sujariam novamente. Ele controla o tempo para que a ação de secagem aconteça, realizada pelo sol e pelas correntes de ar.

O 2 de Espadas sugere ambivalência, conflito de interesses e opiniões aguarda-se uma escolha definitiva. Um trégua ou um acordo podem estar existindo, entretanto a situação não está resolvida e o problema continua ali, esperando uma solução. Talvez seja chegada a hora de parar de procrastinar e agir, optar, decidir, escolher. Talvez, não. Pode ser que a figura da carta do tarot esteja aguardando, sem decidir-se, esperando que a situação se resolva por si mesma, por fatores externos, sem o seu comprometimento.

No desenho do pregador de roupa, ambas as partes são iguais e válidas, necessárias para o funcionamento do artefato, ainda que opostas, antagônicas. Mas ele, também, não decide como ou em quanto tempo a roupa deve secar. Fica lá, parado, prendendo a situação, aguardando que o clima e o tempo decidam como, quando e porque faze-lo. Enquanto isso, espera.

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM TRÂNSITO





EM TRÂNSITO


A imagem de uma garrafa, que abriga em seu interior uma mensagem, vinda dar a uma praia qualquer é sempre interessante, ainda que seja um lugar comum em romances e filmes. O mar, nesse caso, funciona como um carteiro, cumpridor de sua missão, e que sabe onde entregar a “correspondência”.
Na verdade, não é uma correspondência, pois não há a menor condição de resposta. Para onde enviar? É, mesmo, uma mensagem. Uma declaração, um depoimento, um testemunho, uma consideração, um aviso, algumas reflexões, uma piada.

A imagem da garrafa lançada ao mar, que navega mares e oceanos, enfrenta perigos diversos na forma de tempestades, o sol implacável, animais, ventos, correntes marítimas, até aportar nas areias mornas e esperar que alguém a abra e leia se conteúdo, traz consigo uma ideia de um dever solitário.
Quando vi a foto acima, de imediato associei-a ao 6 de Espadas. É até bastante óbvio pois temos, em ambas, o elemento mar, a nave (barco/garrafa), a figura feminina à mercê de ser conduzida (pelo navegador do barco ou pelo destino).

Difícil, observando-se ambas, não associá-las à viagens, mudanças, transporte, transferência. E isso também está contido em seu significado taromântico. Entretanto, por estarmos lidando com uma carta do naipe de Espadas, estamos na esfera do racional, do pensamento abstrato, da análise mental, do discernimento, da verdade, das questões éticas e morais, do cálculo, da objetividade, da precisão.
O que é que essa mulher coberta por uma escura capa e abraçada a uma criança (?) transporta, em forma de 6 espadas? E para onde vai? E quem é o homem que dirige a embarcação?
Ou seja, esse conjunto de personagens em uma determinada situação que beira o surreal (afinal, 6 espadas fincadas no fundo de um barco de madeira não é muito normal...) é que inspira as associações e respostas que cada um obtém da sua atenta observação.

Mas não podemos desconsiderar duas coisas: mudança e raciocínio.




Olho, novamente, ambas imagens e creio ver alguém buscando um novo lugar onde seu conhecimento, seus princípios, aquilo em que ela acredita, a sua forma de pensar e avaliar o mundo encontrem guarida, encontrem ressonância, possam ser apreciados. É como se ela estivesse pensando: “Os incomodados que se retirem”, e ela própria abandonasse uma posição anterior, levando em sua bagagem aquilo que é seu (sua maneira de pensar e interpretar a realidade) e buscasse um porto seguro para si e para os seus.
Isso parece não acontecer de maneira muito fria ou calculista, pois é pelos mais ou menos conturbados movimentos das emoções, entre ondas e calmarias, que essa viagem se processa. Algo de importante, emocionalmente, deve ter sido abandonado em função dessa mudança. Grandes expectativas, geradoras de angústias e temores, fazem parte dessa resolução.

Chegará, ela, ao seu destino final exatamente como partiu? Terão o tempo no mar, o balanço do barco, a ausência de terra firme, a distância percorrida, o possível diálogo com o barqueiro (um mestre, um guru, um professor, um orientador?) modificado algo em sua filosofia, naquilo em que crê, em sua maneira pessoal de captar o ambiente que a cerca, na forma em que compactua ou rejeita a opinião e a verdade alheia? Talvez não. Provavelmente sim. Isso sempre dependerá de quanto ela está disposta em rever seus conceitos, reorganizar suas estruturas mentais, ter uma mente investigativa a tal ponto que a impulsiona a novas descobertas, análises e comparações.

De qualquer forma, ela mesma, essa mulher na garrafa, é a mensagem. Uma missionária de sua própria causa, navegando solitária, porém protegida por aquilo que sabe, que conhece.
Na garrafa, seu timoneiro é o próprio Universo que, muito possivelmente, irá desembarcá-la onde ela sempre deveria ter estado.


Alex Tarólogo

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segunda-feira, 13 de junho de 2016

APEGO







APEGO

Na vida, somos peões e, ao mesmo tempo, jogadores. No grande tabuleiro da nossa existência, batalhas, algumas cruéis, são travadas constantemente. Sentimos a necessidade em nos avaliarmos, compararmos, testarmos e, de alguma maneira, acreditar que podemos chegar a um nivel de auto-conhecimento e a um patamar de segurança que venha servir como uma "blindagem" às adversidades da vida.

Não são poucas as pessoas que acumulam muito, na esperança de que isso lhes confira algum poder sobre os outros, que os faça destacar socialmente, que lhes permita a admiração e reconhecimento alheio. Vêem naquilo que adquiriram, e que podem exibir orgulhosamente, um troféu que lhes garanta uma certa forma de eternidade. Acreditam-se campeões e, portanto, com direito a olharem os demais do alto de seus pódios.

Alguns passam a vida nessa batalha, vendo a tudo e a todos como oportunidades de conquista, cobiçando prêmios e mais prêmios que vão colecionando, muito mais com o intuito de simplesmente te-los e exibi-los, que desfrutá-los. O desejo do poder, de ter forças e condições, de sentir-se dono da situação justifica a luta e as feridas no campo de batalha.
Outros, morbidamente temerosos de reconhecerem a Vida como o grande prêmio, e que mais dia, menos dia, terá que ser devolvido, exaurem-se montando esquemas de reservas, muitas vezes absurdos que, ao mesmo tempo que serve para distraí-los da ideia da efemeridade de tudo e de todos, é uma maneira de não viver o presente, mas sempre estar projetando para um futuro que, francamente, sempre será incerto.

Ter bom-senso, ser precavido, saber planejar, viver de acordo com as necessidades, ter autonomia e poder agir conforme o próprio discernimento, proporciona, sem dúvida alguma, a possibilidade de uma vida mais equilibrada e uma melhor harmonia entre os seus diferentes aspectos. Não há porque agir como o Louco, desarvoradamente, inconsequentemente, alienadamente, descompromissadamente. Esse é o lado oposto da gangorra onde deveríamos buscar equilibrar o Arcano 0, o Louco e o 4 de Ouros, pois entre o completo desapego e a dependência existe um mar de camadas, níveis, tonalidades e possibilidades.

Ao observar a imagem acima, que poderia ser interpretada como uma verdadeira luta em manter-se atado àquilo que normalmente acreditamos como bens que nos proporcionam segurança: dinheiro no banco, uma casa própria, um bom carro, ter alguma forma de poder sobre os demais, etc, o que mais atrai minha atenção é a maneira como o homem se vê e percebe os demais: todos os outros são adversários. Ele não se identifica com nenhum dos "times": nem com as pedras brancas, nem com as pretas. Ele sente-se único, o mais preparado, o mais inteligente, o que tem braços e mãos que lhe permitem agarrar aquilo que deseja. E ele que muito, ainda que repetido, em excesso. Ele quer tudo.




Vendo imagens como essa, ou como a criada por Pamela Colman Smith para o tarot do Waite, me ocorrem algumas frases bem populares como: "Caixão não tem gaveta" e "Quando se morre nada se leva". Na simplicidade e obviedade dessas expressões, existe uma verdade incontestável: nada levamos do que tivemos ou acumulamos "para tempos mais difíceis". Sem entrar no mérito e nem optar por nenhuma linha de pensamento que aborde alguma forma de vida (espiritual, racional, etc) após a morte, sabemos que nada nos acompanha, a não ser (talvez...) imagens, memórias, do que fomos. Nem sei se isso vai como bagagem, mas, com certeza, o carro importado, a conta na Suíça, o apartamento com vista para o mar, as jóias, o jatinho particular e o iate não embarcarão na mesma viagem. Entretanto, muitas vezes esquecemos (ou não queremos lembrar) disso tudo e nos acreditamos novos Tut-Ank-Amon e construímos um arsenal que poderá ser de alguma utilidade na vida após a vida.

Ter ambição e objetivos, buscar e desfrutar do conforto, poder viver a vida de maneira plena, com o mínimo de atribulações evitáveis, sentir-se capaz para realizar os desejos e satisfaze-los de forma harmoniosa é perfeitamente normal e traz dignidade a qualquer ser humano. O problema acontece quando alteramos os níveis dessa mesma ambição e nos tornamos prisioneiros dela.

Em ambas as imagens a figura demonstra enorme apego aquilo que possui. Tanto as moedas, na carta do 4 de Ouros, quanto os objetos que voam, na imagem principal, são, de alguma forma, extensão do corpo do homem. Numa, ele está imobilizado pelo peso dos mesmos. Noutra, ele luta para adquiri-los ou mante-los próximos.
Em ambas, o apego ao lado material da vida o domina. De alguma maneira, a desarmonia se estabelece e a vida fica limitada, para sempre, a um simples tabuleiro de xadrez.

Alex Tarólogo

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