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quarta-feira, 22 de junho de 2016

EMPATE





EMPATE

A imagem de um prendedor de roupas, cada uma de suas partes de uma cor, como que dialogando entre si, pode ser comparada, em termos de simbologia, com o significado tarológico da carta do 2 de Espadas.
A figura pintada por Pamela Colman Smith para essa carta do tarot do Waite, onde uma figura vendada (sem fazer escolhas óbvias, racionais, influenciadas pelas aparências), está sentada (não tem pressa, a situação é demorada e demanda ajustes) de costas para o mar e a noite enluarada (evitando deixar-se decidir de forma unicamente emocional ou intuitiva), segura duas espadas de igual forma e tamanho (problemas, opiniões, possibilidades, opções, idéias, ações, etc. iguais em conteúdo e conseqüências), também expressa um conflito.
É uma decisão a ser tomada para a resolução de um problema, porém envolvendo opções que possuem o mesmo peso e medida. Ou seja, fica-se entre a cruz e a fogueira. É um beco sem saída.

Interessante observar que a carta 2 de Espadas retrata um momento de aparente paz. Há um silêncio, uma inatividade, uma imobilidade bastante frustrante e constrangedora na imagem. As espadas cruzada sobre o peito da mulher não irão permanecer nesse forçado equilíbrio por muito tempo. Mas, tempo é o que ela precisa para poder optar com maior segurança. Então, sentada, alheia às suas emoções e evitando confrontar-se com a realidade, ela espera.




E aí surge uma possível analogia com a ilustração do prendedor de roupas. Sua função é a de segurar, prender, imobilizar a roupa enquanto ela seca. Não é ele o agente da ação, mas um coadjuvante indispensável. Sem ele as roupas voariam ao sabor do vento e, ao invés de secarem, se perderiam ou se sujariam novamente. Ele controla o tempo para que a ação de secagem aconteça, realizada pelo sol e pelas correntes de ar.

O 2 de Espadas sugere ambivalência, conflito de interesses e opiniões aguarda-se uma escolha definitiva. Um trégua ou um acordo podem estar existindo, entretanto a situação não está resolvida e o problema continua ali, esperando uma solução. Talvez seja chegada a hora de parar de procrastinar e agir, optar, decidir, escolher. Talvez, não. Pode ser que a figura da carta do tarot esteja aguardando, sem decidir-se, esperando que a situação se resolva por si mesma, por fatores externos, sem o seu comprometimento.

No desenho do pregador de roupa, ambas as partes são iguais e válidas, necessárias para o funcionamento do artefato, ainda que opostas, antagônicas. Mas ele, também, não decide como ou em quanto tempo a roupa deve secar. Fica lá, parado, prendendo a situação, aguardando que o clima e o tempo decidam como, quando e porque faze-lo. Enquanto isso, espera.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

PÂNICO




PÂNICO

Poucas coisas são piores do que as consequências de fantasias mórbidas. É algo que desestabiliza por completo qualquer ser humano. A imaginação, que é o produto da atividade cerebral unida a algo muito mais impalpável, mais elevado, que poderíamos chamar de espiritual, às vezes nos prega peças.
O corpo reage imediatamente, com descargas seguidas de adrenalina que só fazem aumentar vertiginosamente a ansiedade, a sensação de perigo e morte eminentes.
Um pavor irracional e absoluto toma conta do indivíduo, que se sente totalmente desprotegido, à mercê de algo que ele não compreende, não visualiza corretamente e que se confunde com a realidade. Tontura, sudorese, taquicardia, paralisia momentânea, necessidade de fugir sem saber exatamente do quê ou para onde são alguns dos sintomas mais comuns.

Quando a pessoa acometida desse mal consegue superar a vergonha de confessá-lo e procurar ajuda terapêutica adequada, o processo de cura é mais ou menos rápido, dependendo em quanto essa absoluta e injustificada sensação de insegurança está, neuroticamente, instalada e sedimentada no sujeito.
Síndrome de Pânico é o nome popular dado a esse conjunto de sintomas motivados por uma alteração química, ou qualquer outro motivo que a ciência e os terapeutas profissionais, justifiquem o desencadear de medos, terrores, angústias totalmente injustificados.

A figura clássica da mulher sentada em sua cama, no meio da noite, com as mãos segurando a cabeça, e com 9 espadas pendendo sobre si, é uma excelente ilustração para essa síndrome.
A ideia de isolamento e imobilidade para fugir, de viver às escuras, sem saber quando, onde ou porque será acometida novamente por um surto, tentado, com as mãos, impedir que o cérebro libere imagens aterrorizantes, foi perfeitamente detalhada, a pedido do criador desse maço de cartas, o Waite, pela artista Pamela Colman Smith.



É pura imaginação, e depois de diagnosticado, o indivíduo sabe disso. Sabe que seus pensamentos, naqueles momentos, não refletem nenhuma condição real, que é um processo de breve duração, às vezes pouquíssimos minutos. Sabe também que respirar tranquila e ritmicamente, evitar entrar em desespero tentando o que parece ser impossível, ou seja, relaxar, irá ajudar na brevidade da crise. Mas enquanto ela dura, ainda que sejam alguns intermináveis segundos, é uma experiência que parece ser semelhante aos instantes que antecedem uma morte violenta.

Hoje, observando a imagem que ilustra este comentário, encontro nelas claros sinais desse tipo de tormento mental. O medo incontrolável ao sentir, sem conseguir justificar, que algo de terrível está para acontecer. Que o planeta vai girar fora de sua órbita e estaremos vagando na infindável escuridão espacial, que a água do banho de chuveiro irá nos afogar, que acordaremos completamente desmemoriados, sem saber quem somos, que sofreremos uma crise durante uma viagem de avião e que correremos até a porta da cabine, abrindo-a e causando a queda do aparelho... Soturnos delírios da imaginação. Pânico.

Mas no Tarot, quando temos escuridão na representação da carta, simboliza que, além daqueles limites reina a luz. A luz que revela a verdade, que esclarece os fatos, que elucida os problemas, que elimina as assustadoras sombras e sons ouvidos à noite.
É preciso aproveitar os momentos mais iluminados para buscar ajuda profissional adequada e, também, conscientizar-se de que nada de concreto, verdadeiro, premonitório ou espiritual existe naqueles terríveis momentos de crise. Que tudo não passa de mera fantasia e, como toda fantasia, tem data para acabar e não deve e nem pode competir com a verdade, a lógica e a razão.

Alex Tarologo

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terça-feira, 22 de março de 2016

RUÍNA



 
Essa foto do filme “M, o Vampiro” (1931), uma das obras primas do Expressionismo alemão do diretor Fritz Lang, mostra o momento em que o personagem principal do filme, um serial-killer, é identificado pela população.
Os dedos acusadores, incriminando o suspeito, tornam ainda mais evidente a expressão de total desamparo e desespero do ator Peter Lorre. O “vampiro” foi, finalmente, após uma trilha de crimes cometidos contra as crianças de Dusseldorf, desmascarado. Em seu rosto, um rictus de horror que muito revela sobre seu caráter, como da tomada de consciência das consequências de seus atos.
Não mais mentiras, disfarces, subterfúgios. A hora da verdade é chegada. Esse assassino pode ter enganado a muitos, durante muito tempo e isso pode te-lo transformado num arrogante matador. Entretanto, mesmo que tardia, a verdade é algo da qual não podemos escapar totalmente e, no caso desse personagem, a foto acima retrata a sua queda.
Nada mais poderá salvá-lo. Todas as suspeitas se confirmaram e provas concretas foram coletadas. Não há mais condições para álibis ou novas mentiras. O rastro de seus crimes e o acreditar-se mais esperto e inteligente que todos os demais, foram a sua própria armadilha. Agora é o momento em que o Ego é reduzido à nada.



A pintora Pamela Colman Smith, no começo do século passado, criou uma imagem muito dramática para a carta 10 de Espadas do tarot do Waite. Nela, uma figura humana está prostrada ao chão com 10 espadas cravadas em suas costas. É a morte moral, do respeito e aceitação sociais, do orgulho, do Ego. É o fim. Há que reconhecer ter perdido todas as batalhas, ter sido vencido em todas as suas tentativas de impor-se. Não há outra saída a não ser entregar-se, reconhecer a derrota e, como nada mais há para perder, recomeçar a construir-se, agora sem ilusões, sem fraquezas, sem preconceitos, com novas crenças e valores.

O “vampiro”, também, foi derrotado pela luz, pela claridade e transparência da verdade. Seus atos escusos foram expostos, inclusive a si próprio. Ele, que os cometia protegido dos outros, e da sua consciência, nas sombras da noite, tem nos dedos acusadores que apontam em sua direção como que raios de luz a revelar-lhe o quão errado estivera até então. É chegado o tempo de sofrer as consequências dos erros cometidos, resignar-se, curvar-se diante das evidências e, na medida do possível, reerguer-se, regenerar-se, curar suas feridas.
Ambas as figuras, tanto no fotograma do filme quanto na carta, estão sem saída. Um está “contra a parede”; o outro, “derrubado”. Os dois: vencidos, derrotados.
O que cada um foi ou representou, acreditou ou cometeu, está morto e, como tal, dá lugar para o novo. Pior do que está, não vai ficar. É o “fundo do poço” e, como tal, só lhes sobra subir pois, descer mais, é impossível.

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

TRAVESSIA





TRAVESSIA

Quantas vezes na vida prometemos a nós mesmos que nunca mais faremos isso ou aquilo, que não somos mais a mesma pessoa de antigamente, que superamos todos os problemas que nos faziam sofrer, que mudamos radicalmente nossa maneira de pensar tendo deixado para trás uma série de atitudes, preconceitos, crenças ou ilusões e que, daqui para frente tudo vai ser diferente?
E quantas vezes essa promessa se cumpriu, realmente?

No Tarot, a carta mais positiva do naipe de Espadas, além do Ás, é a de número 6. Costumeiramente interpretada como sinal de uma mudança positiva, um abandonar de problemas e dificuldades existentes a nível mental, e a transição para uma nova forma de pensar a vida. É, enfim, um alento e um sopro de alguma esperança numa de uma série que, quase sempre prenuncia situações de conflito.

A foto acima, com esse carro dourado sobre o qual a escultura de um enorme Cristo crucificado está firmemente amarrada, é tão surreal quanto inspiradora, e não deixa de se assemelhar em conteúdo ima ético àquela pintada por Pamela Colman Smith para o Tarot do Waite.
Muitas vezes na vida nós mudamos. Seja de casa, de trabalho, de relacionamento, de país, de religião, de interesses, de grupos de amigos, na vã esperança de, assim procedendo, estarmos nos transformando e modificando situações que nos incomodam. Freqüentemente somos tentados a nos iludir querendo acreditar que as transformações, que sabemos necessárias, ocorrem de fora para dentro. Fica mais fácil assim, não é mesmo? Como se fosse possível erradicar o passado por completo e recomeçar do zero, sem que nenhum traço do que fomos sobrasse para nos lembrar de algo sem que isso fosse um longo trabalho de reformulação interior.




O que deixamos para trás sempre é muito significativo e faz parte do nosso processo evolutivo. É a origem do momento presente. São indissolúveis:um é causa, o outro, consequência. Portanto, levamos conosco, onde quer que estivermos, o peso das nossas ações passadas.
O problema acontece quando alguns não conseguem ver nos erros e desenganos as bases que nos fizeram optar por ações, atitudes e reflexões mais satisfatórias e harmoniosas. São pessoas que não conseguem perdoar a si mesmas, construindo e erguendo, onde quer que estejam, uma cruz onde possam se auto-punir. Essas criaturas fazem grandes alterações em suas vidas, mas não alteram seus padrões mentais, impedindo-as de evoluírem, não se permitindo extrair uma experiência positiva de qualquer desacerto.
Outras, entretanto, também carregam consigo onde quer que vão as experiências passadas, para delas se utilizarem como um referencial de seu próprio crescimento, em termos de conhecimento, ética, moral. A "cruz" não mais pesa sobre os ombros, dificultando e amargurando a caminhada, mas segue junto ao resto da bagagem, em meio a tudo aquilo que constitui sua história de vida.

E daí, do nada, surge em meio a tantas outras, a foto desse carro dourado como os nossos mais nobres pensamentos a transportar, sobre seu teto, todas as dores e pecados do mundo já redimidos, numa hiper-realista representação do divino humanizado.
Então a viagem torna-se realmente transformadora, pois não deixa para trás nada do que é importante para se utilizar em caso de novas turbulências pelo caminho. É o estepe, o "macaco" e as ferramentas em ordem e em boas condições, além do triângulo de segurança, do pisca-alerta ligado e da caixa de primeiros socorros à mão.
Resta aproveitar a paisagem e confiar no sucesso da travessia.

Alex Tarólogo

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