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quarta-feira, 20 de julho de 2016

FORMADORES DE OPINIÃO

                                     

Se há uma expressão dúbia e que muito se aproxima do pejorativo surgida na ultima década, freqüentemente usada pela imprensa, é a "formador de opinião". Com certeza você já a leu ou ouviu, em algum lugar, referindo-se a alguém a quem, por melhor definição, algumas pessoas consideram uma evolução do antigo "palpiteiro".
Sempre que a ouço me vem à lembrança a imagem invertida do Hierofante, ou Papa, o Arcano V do Tarot. Aquela figura que se propõe a ser um "lobbysta", um intermediário entre o profano e o sagrado, entre os deuses e os reles mortais. Perigoso como ele só, se auto-intitula um intérprete daquilo que os demais, sem a sua ajuda, seriam incapazes de entender.
Evidentemente essa figura sempre existiu, travestido de uma maneira ou outra, em todas as épocas e culturas. Sempre necessitou-se de alguém mais esclarecido que pudesse dar voz àquilo que os menos preparados deveriam saber. Encontramos essa criatura encarnada como um venerando e sábio mestre, um respeitado guru, um profissional cujo conhecimento abrevia a evolução dos demais, um orientador disposto a transformar a jornada do outro no caminho mais curto ao que lhe é importante e necessário saber, alguém que consiga ter uma visão clara da evolução da humanidade e possa, através de apropriadas reflexões e normas, ajudá-lá nesse processo. Esse é o Hierofante em seu melhor aspecto, quando suas mais brilhantes características ou qualidades estão à disposição da melhoria de condição de vida de muitos.
Mas, quando o lado obscuro desse personagem projeta sua sombra, cuidado! Cai por terra todo o humanitarismo, toda a generosidade das valiosas informações e conselhos. Desaparece o arauto do divino e surge o déspota, o maquiavélico manipulador de informações e consciências, aquele cujo conceito do que seja ética é o que expressa sua particular forma de pensar e favorece seus mais obscuros interesses.
Bom, mas essa deplorável figura não existiria se não fosse criada e elevada a essa posição. Ela, para existir, carece de séquito, de robozinhos dispostos a executarem seus mandos ou desmandos. O respeito que ela inspira não foi conquistado por méritos, mas atribuída por seus eleitores. Ele, o Hierofante mal dignificado, ocupa o cargo e usufrui dos benefícios porque essa posição lhe foi outorgada por seus párias, por gente que faz dele uma ampliação daquilo que são.
Bloggers, Snapchatters, Youtubers agregam milhares, e até milhões, de seguidores exibindo... suas vidas, ou seja, a ida com o cachorrinho à petshop, o tutorial de maquiagem, o depoimento sobre a dificuldade em manter um relacionamento (no caso, o dela / dele), a emoção de viajar mesmo não sabendo bem o que está vendo, a importância vital em saber comprar um artigo de luxo indispensável na vida de qualquer ser humano, etc, etc. Quando o "Fenômeno" estava no auge de sua carreira como jogador de futebol, quantos homens deixaram-se seduzir pelo seu estilo "Pinduca" e rasparam os cabelos, preservando apenas aquele topetinho? Talvez seja por esse tremendo sucesso e aprovação de público que um enciumado inglês de nome Beckham lançou o corte moicano para uma legião de outros torcedores, ou não, que independente de terem cabelos, idade e porte adequados ao corte, identificaram-se de imediato com o charme metrosexual do ídolo. E o que falar do poder do merchandising televisivo, que impinge aos consumidores mais incautos, ridículos modismos através dos personagens das novelas e afins?



Deve ser muito constrangedor à pessoa chamada, ou auto-intitulada, "formadora de opinião" perceber que seus seguidores são acéfalos. Só quem não tem opinião alguma, compra, empresta, copia, adere e usa a do outro como se sua fora. Só aquele, incapaz de refletir sobre a opinião alheia, compará-la com outras opções, verificar-lhe a origem, validade, qualidade e saber adptá-la às suas necessidades e interesses, à sua realidade enfim, é quem irá aumentar o séquito do pretenso dono de uma opinião a ser copiada.
Sempre achei a história do Flautista de Hamelin muito próxima à descrição dessas pessoas, esses Hierofantes de araque, que por um grande trabalho de marketing pessoal, por interesses dos mais escusos de uma determinada facção, ou por servirem de pobre inspiração para aqueles que não tem nenhuma, também se contentam e vangloriam em ter uma procissão de ratos, ou de inocentes, tolas, inexperientes e incautas criaturas, por hipnotizados acompanhantes. Vítimas do encantamento produzido pelos dons e talentos do flautista, sempre utilizados unicamente em beneficio de seus interesses pessoais, sejam eles financeiros ou de vingança, elas se deixam arrastar, em multidão, às profundezas do rio, onde encontram seu trágico fim. Esse metafórico afogamento nas escuras águas está a simbolizar a desilusão, o arrependimento, os sentimentos traídos.
Para ser mais gráfico, é aquela sensação de ridículo que a gente sofre quando, revendo o álbum de fotografias (se é que ainda existe isso) reconhece-se, por exemplo, usando boina, cavanhaque e bigode, a la Che Guevara, longe das selvas, mas na luta corporal para conseguir ser atendido no dia da inauguração do MacDonald's de um Shopping Center qualquer. Ou ofuscando completamente o magricelo noivo e perdida entre metros e metros de tafetá, envolta por rendas e babados em intermináveis camadas , que só fizeram ressaltar um corpo muito mais necessitado de um bom nutricionista e muitas horas de academia.
Opinião se forma colhendo de muitas fontes, de diversas procedências, com muita reflexão, deixando sedimentar aos poucos, nunca se permitindo acreditar ter encontrado uma resposta absoluta. Opinião é algo próprio, pessoal, que nos define e qualifica. Não pode ser postiça, ou nos faz umas verdadeiras e incautas "Maria-vai-com-as-outras". Não deve ser imposta e nem pode ser inflexível. Opinião deve ser a expressão de uma verdade individual, que serve perfeitamente a quem a possui e emite, mas que só se aperfeiçoa quando confrontada com outras. Quando isso não ocorre, pode virar Ato Institucional.
Daí então, adeus opiniões pessoais, autonomia, autoconhecimento, e salve, salve o Hierofante da vez!
Alex Tarólogo
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sexta-feira, 15 de julho de 2016

PENDURADO





PENDURADO

O jogo “da forca” é aquele em que, a cada letra errada para formar uma determinada palavra, o jogador vai acrescentando mais uma parte ao desenho que o representa. O que ele não pode, ou deve, deixar que aconteça, é cometer um número de erros suficiente que seu avatar iconográfico fique completo. O pior é que essa figurinha enquanto vai sendo completada, pelos erros do jogador, vai sendo enforcada. O Jogo começa com a corda, a estrutura do cadafalso e a “palavra secreta”.
A foto acima tem muito dessa brincadeira. O indivíduo vai criando marcas nas paredes, que talvez representem os dias em que está encarcerado ou, mesmo, os seus erros. Enquanto isso, vai-se formando, membro a membro, a figura a ser enforcada. E, note-se, o próprio homem já está com uma corda no pescoço...

Quase todas as vezes que observo as diversas representações artísticas do Arcano XII, o Pendurado (que muitos, devido a uma tradução literal do nome inglês dessa carta, o chamam de Enforcado), penso em situação semelhante à da imagem acima. Tudo nele me lembra um tempo forçado de reclusão. Uma época em que nada progride. Uma ameaça que a presente situação pode ainda piorar...
Se a origem da carta está, ou não, ligada a punições, ritos de passagem, à desmoralização, isso é pouco perto da maneira explícita que ela costuma ser ilustrada.

Sem dúvidas, ficar pendurado por uma perna deve ser, antes de mais nada, algo altamente doloroso. Uma tortura. Além do fato de que seria necessário um grande preparo físico, talvez o de um atleta olímpico, para a própria pessoa conseguir flexionar-se de livrar-se da amarra. Ainda assim corre o risco de cair de cabeça.




Tem-se que considerar também o fato de que, imobilizado, o sujeito não tem condições de exercitar seu direito de ir e vir, o seu livre arbítrio quanto às opções de onde estar. Como se isso já não fosse o suficiente, ficar numa situação inversa aos demais expõe o indivíduo ao escárnio alheio. Torna-se motivo de chacota. Tem sua autoestima aviltada. O Ego reduz-se a uma sombra do que já foi.
Ninguém opta por esse tipo de situação de boa vontade ou porque assim o quer, a não ser, é claro, aqueles que vivem de fazerem-se de “pobres vítimas de um destino cruel, enjeitados por todos, frutos do desprezo de um deus cruel”. Normalmente, quando nos vemos nesse triste papel de Pendurados, é porque não tínhamos outra opção. Temos que vive-lo, em sua extensão, esperando que, ao menos, sua duração seja breve e que possamos descobrir logo a "palavra oculta", a razão do porque estarmos envolvidos em tal episódio, e nos safarmos da corda que vai, como no jogo da forca, se apertando em nossos pescoços.

Eu me pergunto se, enquanto passamos por situações que nos limitam a ação, nos sufocam, que nos obrigam a rever toda uma filosofia de vida, que nos forçam a esperar por resultados que parecem nunca acontecer, se realmente acreditamos numa recompensa qualquer para esse tipo de, digamos, tortura. Quase todas as ilustrações que conheço desse Arcano, acrescentam um halo de luz, numa referência quase explícita à divindade ou à iluminação interior, no pobre coitado que balança pendurado pelo pé. Isso para nos recordar, penso eu, que todo sacrifício nos redime, eleva, nos torna melhores e deles saímos mais sábios, experientes, preparados, com um outro olhar sobre tudo e todos.
Pode mesmo ser isso, e eu espero sinceramente que assim o seja.

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM TRÂNSITO





EM TRÂNSITO


A imagem de uma garrafa, que abriga em seu interior uma mensagem, vinda dar a uma praia qualquer é sempre interessante, ainda que seja um lugar comum em romances e filmes. O mar, nesse caso, funciona como um carteiro, cumpridor de sua missão, e que sabe onde entregar a “correspondência”.
Na verdade, não é uma correspondência, pois não há a menor condição de resposta. Para onde enviar? É, mesmo, uma mensagem. Uma declaração, um depoimento, um testemunho, uma consideração, um aviso, algumas reflexões, uma piada.

A imagem da garrafa lançada ao mar, que navega mares e oceanos, enfrenta perigos diversos na forma de tempestades, o sol implacável, animais, ventos, correntes marítimas, até aportar nas areias mornas e esperar que alguém a abra e leia se conteúdo, traz consigo uma ideia de um dever solitário.
Quando vi a foto acima, de imediato associei-a ao 6 de Espadas. É até bastante óbvio pois temos, em ambas, o elemento mar, a nave (barco/garrafa), a figura feminina à mercê de ser conduzida (pelo navegador do barco ou pelo destino).

Difícil, observando-se ambas, não associá-las à viagens, mudanças, transporte, transferência. E isso também está contido em seu significado taromântico. Entretanto, por estarmos lidando com uma carta do naipe de Espadas, estamos na esfera do racional, do pensamento abstrato, da análise mental, do discernimento, da verdade, das questões éticas e morais, do cálculo, da objetividade, da precisão.
O que é que essa mulher coberta por uma escura capa e abraçada a uma criança (?) transporta, em forma de 6 espadas? E para onde vai? E quem é o homem que dirige a embarcação?
Ou seja, esse conjunto de personagens em uma determinada situação que beira o surreal (afinal, 6 espadas fincadas no fundo de um barco de madeira não é muito normal...) é que inspira as associações e respostas que cada um obtém da sua atenta observação.

Mas não podemos desconsiderar duas coisas: mudança e raciocínio.




Olho, novamente, ambas imagens e creio ver alguém buscando um novo lugar onde seu conhecimento, seus princípios, aquilo em que ela acredita, a sua forma de pensar e avaliar o mundo encontrem guarida, encontrem ressonância, possam ser apreciados. É como se ela estivesse pensando: “Os incomodados que se retirem”, e ela própria abandonasse uma posição anterior, levando em sua bagagem aquilo que é seu (sua maneira de pensar e interpretar a realidade) e buscasse um porto seguro para si e para os seus.
Isso parece não acontecer de maneira muito fria ou calculista, pois é pelos mais ou menos conturbados movimentos das emoções, entre ondas e calmarias, que essa viagem se processa. Algo de importante, emocionalmente, deve ter sido abandonado em função dessa mudança. Grandes expectativas, geradoras de angústias e temores, fazem parte dessa resolução.

Chegará, ela, ao seu destino final exatamente como partiu? Terão o tempo no mar, o balanço do barco, a ausência de terra firme, a distância percorrida, o possível diálogo com o barqueiro (um mestre, um guru, um professor, um orientador?) modificado algo em sua filosofia, naquilo em que crê, em sua maneira pessoal de captar o ambiente que a cerca, na forma em que compactua ou rejeita a opinião e a verdade alheia? Talvez não. Provavelmente sim. Isso sempre dependerá de quanto ela está disposta em rever seus conceitos, reorganizar suas estruturas mentais, ter uma mente investigativa a tal ponto que a impulsiona a novas descobertas, análises e comparações.

De qualquer forma, ela mesma, essa mulher na garrafa, é a mensagem. Uma missionária de sua própria causa, navegando solitária, porém protegida por aquilo que sabe, que conhece.
Na garrafa, seu timoneiro é o próprio Universo que, muito possivelmente, irá desembarcá-la onde ela sempre deveria ter estado.


Alex Tarólogo

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segunda-feira, 13 de junho de 2016

APEGO







APEGO

Na vida, somos peões e, ao mesmo tempo, jogadores. No grande tabuleiro da nossa existência, batalhas, algumas cruéis, são travadas constantemente. Sentimos a necessidade em nos avaliarmos, compararmos, testarmos e, de alguma maneira, acreditar que podemos chegar a um nivel de auto-conhecimento e a um patamar de segurança que venha servir como uma "blindagem" às adversidades da vida.

Não são poucas as pessoas que acumulam muito, na esperança de que isso lhes confira algum poder sobre os outros, que os faça destacar socialmente, que lhes permita a admiração e reconhecimento alheio. Vêem naquilo que adquiriram, e que podem exibir orgulhosamente, um troféu que lhes garanta uma certa forma de eternidade. Acreditam-se campeões e, portanto, com direito a olharem os demais do alto de seus pódios.

Alguns passam a vida nessa batalha, vendo a tudo e a todos como oportunidades de conquista, cobiçando prêmios e mais prêmios que vão colecionando, muito mais com o intuito de simplesmente te-los e exibi-los, que desfrutá-los. O desejo do poder, de ter forças e condições, de sentir-se dono da situação justifica a luta e as feridas no campo de batalha.
Outros, morbidamente temerosos de reconhecerem a Vida como o grande prêmio, e que mais dia, menos dia, terá que ser devolvido, exaurem-se montando esquemas de reservas, muitas vezes absurdos que, ao mesmo tempo que serve para distraí-los da ideia da efemeridade de tudo e de todos, é uma maneira de não viver o presente, mas sempre estar projetando para um futuro que, francamente, sempre será incerto.

Ter bom-senso, ser precavido, saber planejar, viver de acordo com as necessidades, ter autonomia e poder agir conforme o próprio discernimento, proporciona, sem dúvida alguma, a possibilidade de uma vida mais equilibrada e uma melhor harmonia entre os seus diferentes aspectos. Não há porque agir como o Louco, desarvoradamente, inconsequentemente, alienadamente, descompromissadamente. Esse é o lado oposto da gangorra onde deveríamos buscar equilibrar o Arcano 0, o Louco e o 4 de Ouros, pois entre o completo desapego e a dependência existe um mar de camadas, níveis, tonalidades e possibilidades.

Ao observar a imagem acima, que poderia ser interpretada como uma verdadeira luta em manter-se atado àquilo que normalmente acreditamos como bens que nos proporcionam segurança: dinheiro no banco, uma casa própria, um bom carro, ter alguma forma de poder sobre os demais, etc, o que mais atrai minha atenção é a maneira como o homem se vê e percebe os demais: todos os outros são adversários. Ele não se identifica com nenhum dos "times": nem com as pedras brancas, nem com as pretas. Ele sente-se único, o mais preparado, o mais inteligente, o que tem braços e mãos que lhe permitem agarrar aquilo que deseja. E ele que muito, ainda que repetido, em excesso. Ele quer tudo.




Vendo imagens como essa, ou como a criada por Pamela Colman Smith para o tarot do Waite, me ocorrem algumas frases bem populares como: "Caixão não tem gaveta" e "Quando se morre nada se leva". Na simplicidade e obviedade dessas expressões, existe uma verdade incontestável: nada levamos do que tivemos ou acumulamos "para tempos mais difíceis". Sem entrar no mérito e nem optar por nenhuma linha de pensamento que aborde alguma forma de vida (espiritual, racional, etc) após a morte, sabemos que nada nos acompanha, a não ser (talvez...) imagens, memórias, do que fomos. Nem sei se isso vai como bagagem, mas, com certeza, o carro importado, a conta na Suíça, o apartamento com vista para o mar, as jóias, o jatinho particular e o iate não embarcarão na mesma viagem. Entretanto, muitas vezes esquecemos (ou não queremos lembrar) disso tudo e nos acreditamos novos Tut-Ank-Amon e construímos um arsenal que poderá ser de alguma utilidade na vida após a vida.

Ter ambição e objetivos, buscar e desfrutar do conforto, poder viver a vida de maneira plena, com o mínimo de atribulações evitáveis, sentir-se capaz para realizar os desejos e satisfaze-los de forma harmoniosa é perfeitamente normal e traz dignidade a qualquer ser humano. O problema acontece quando alteramos os níveis dessa mesma ambição e nos tornamos prisioneiros dela.

Em ambas as imagens a figura demonstra enorme apego aquilo que possui. Tanto as moedas, na carta do 4 de Ouros, quanto os objetos que voam, na imagem principal, são, de alguma forma, extensão do corpo do homem. Numa, ele está imobilizado pelo peso dos mesmos. Noutra, ele luta para adquiri-los ou mante-los próximos.
Em ambas, o apego ao lado material da vida o domina. De alguma maneira, a desarmonia se estabelece e a vida fica limitada, para sempre, a um simples tabuleiro de xadrez.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 8 de junho de 2016

EMOÇÕES





EMOÇÕES

Finalmente encontro, na imagem do poster acima, retratada de forma mais positiva, a saída daquele estado de profunda decepção do 5 de Copas.

Se observarmos bem a carta de tarot abaixo, pintada por Pamela Colman Smith para o tarot concebido pelo Waite, o que mais chama a atenção é a soturna figura humana, totalmente coberta pela enorme capa do luto que dela se apossa quando da constatação que 3 taças estão partidas, a seus pés. Sendo o naipe de Copas aquele que representa nossos sentimentos (amor, ódio, arrependimento, decepção, tédio, alegria, pesar, amizade, etc), o líquido contido nessas taças é tão fluido, escorregadio e volátil quanto as emoções que representa.

A negra figura lamenta profundamente a perda sofrida. Provavelmente havia investido todas as suas esperanças afetivas em alguém que, ao final, a decepcionou. Sente-se só, abandonada, afastada do convívio social, inerte, sem vontade de tomar a iniciativa de cruzar novamente o rio de suas emoções, desta vez mais experiente e com a possibilidade de utilizar-se do artificio de uma ponte, e reintegrar-se ao convívio do seu grupo.




Tão profunda é a sua dor que o paralisa e impede que veja que outras taças estão à sua espera. Não consegue lembrar-se de que nem tudo foram perdas, e que momentos felizes também foram vividos. Não consegue perceber que outras oportunidades estão à sua espera, bastando que ele pare de lamentar-se por aquilo que já se perdeu e dê a si mesmo uma nova chance.

Observando a antiga publicidade de um bom vinho do Porto, não pude evitar comparar as duas figuras e imaginar que o homem do poster poderia ser o mesmo do 5 de Copas, só que restabelecido, novamente ativo, pronto para seguir viagem, proporcionar-se novos motivos para sentir-se feliz. Quero acreditar que, tendo vivido intensamente a sua dor, ele tenha, finalmente, sepultado os sentimentos mórbidos, fossem de culpa ou de auto-piedade, e, livre das amarras da frustração, do medo, da vergonha, tenha se voltado e encontrado as taças remanescentes.

A sensação de que tudo esta perdido, de que nada mais vale a pena, de que não teria mais coragem para recomeçar, tudo isso desaparece ao perceber que a fonte que abastece as taças é a nascente de um caudaloso rio. Consciente disso, segue em frente, carregando cuidadosamente como a um troféu, as emoções que ainda pretende viver.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 30 de maio de 2016

SEM SAÍDA




ENROLADO

Encontro um amigo e, quando pergunto como vai, ele responde com um "Enrolado, sabe como é...". Uma aluna me liga dizendo que não poderá vir à aula de hoje porque está "toda enrolada, com hóspedes em casa, filhos retornando às aulas, sem cabeça pra nada...". Um amigo de muito tempo, recém separado, passa para contar que está com a situação amorosa novamente "enrolada". Daí então me deparo com a foto acima e começo a rir, sozinho, substituindo mentalmente a figura atada ao novelo pelos meus interlocutores.

Quantas e quantas vezes vivemos situações em que nos sentimos completamente envolvidos, "enrolados" com dificuldades em optar,  por estarmos vivendo contradições, estarmos sofrendo com pequenas ou grandes mentiras, ou com o acúmulo de assuntos pendentes, ou pelas cobranças feitas por esposa, filhos, funcionários, chefes, amigos, clientes, etc? Creio que todos, em algum momento, tenham vivido esse sentimento de incapacidade em encontrar soluções razoáveis para os desafios que enfrentavam.


A expressão "enrolado" bem define o grau de envolvimento em que a "vítima" se acha na situação, bem como ela se percebe de mãos e pés atados (e isso é outra expressão com o mesmo significado), impedida de retirar a venda da ignorância e da duvida, que a impedem de ver claramente o problema como um todo e suas partes constituintes. Assim sendo, tateia, às escuras, impedida de evoluir e agir. Sem ação, devido às cordas que lhe prendem os braços e as mãos, não há como desembaraçar-se e caminhar para um resultado satisfatório.

Enrolado está o rapaz que vai-se comprometendo cada vez mais com a namorada, fazendo-lhe promessas e, ao mesmo tempo, mortificado em ter que abandonar a tal liberdade da vida de solteiro. Enrolada está a pessoa que inventa mentiras "inocentes" para justificar erros que, ela bem sabe, estão sendo descobertos. Enrolado está aquele que comprometeu seu salário, economias e bom-senso gastando o que tinha e o que tinha esperanças em vir a ter, para satisfazer, momentaneamente, o ego e dar uma festa nababesca a um enorme grupo de amigos.
Enrolados nos sentimos, todos, quando perdemos a coragem, quando criamos fantasias mórbidas que nos fazem frágeis e temerosos de tudo e de todos, petrificados de terror diante da vida.

O melhor de tudo é reconhecer que essa situação não nos foi imposta, mas criadas por nós mesmos. Portanto o fio da meada que nos enrola está em nossas mãos, ou melhor, em nosso aspecto racional. Basta que deixemos o pânico de lado, olhemos a situação criteriosamente, da maneira mais objetiva e analítica possível, recuperemos a razão e o equilíbrio, e reorganizemos planos e ações efetivas que nos libertem da teia de enganos, fantasias e confusões que criamos.

Assim, "desenrolados", poderemos corajosamente enfrentar e resolver, com precisão, as pendências e evoluirmos, em busca de melhores dias.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

TESOURO







TESOUROS DO CORAÇÃO


Onde se pode guardar a felicidade de tal forma que ela permaneça "conservada", inalterável em suas qualidades, preservada da "poluição" e tudo o mais que possa aviltar seus méritos e virtudes?

O trabalho desse artesão que, dentro de um diminuto frasco, eternizou sua ideia de perfeita felicidade fez com que eu imediatamente lembrasse da imagem criada por Pamela Colman Smith para a carta 10 de Copas do Tarot do Waite.

Harmonia, alegria, amor, contentamento nas relações familiares, sociais ou trabalhistas é a essência dessa carta. Ainda que ela se refira, primariamente, à felicidade doméstica, ela é a consequência direta do 2 de Copas, que simboliza o encontro, o contato, o vínculo que estabelecemos com o outro e que, esperançosamente, resulta na sua expansão, agregando outros mais pelos caminhos de seu desenvolvimento.

Se a família, grande ou pequena, é consequência do encontro e comprometimento de duas pessoas, ela também arregimenta a família, os amigos, os conhecidos de ambos os enamorados. Cada um traz seu grupo afetivo para a união. E a soma e equilíbrio entre essas contribuições resulta numa sensação de segurança emocional extremamente satisfatória e produtiva.




Na imagem da lâmina do Tarot um casal e seus filhos demonstram, na sua contemplativa saudação ao arco-íris que se forma sobre suas pessoas e propriedade, uma gratidão que provém do mais fundo de suas emoções. Se o arco-íris é um dos símbolos da presença divina em comunicação com as criaturas, esse grupo de personagens, unidos, expressam seu reconhecimento e encantamento pela "colheita" das bênçãos que lhes foram conferidas.

Também no universo miniaturizado criado pelo artista percebe-se esse mesmo desejo de expressar um estado de harmonia emocional tão importante que se deseja eternizá-lo.
Problemas, dificuldades, insatisfações, quem não as tem, em algumas etapas do caminho? Fazem parte do processo de aprendizagem de todo ser humano. Só sabemos o que é dor ou sofrimento porque conhecemos, e podemos comparar, com a sensação de bem estar e outros aspectos mais saudáveis do viver. Portanto, é natural querer preservar, pelo maior espaço de tempo possível, as condições de alegria e conforto que encontramos quando observamos e vivenciamos os pequenos milagres que a vida constantemente nos concede.

Olhando a imagem da pequena paisagem construída numa garrafinha que pode ser carregada no bolso, penso ser assim a melhor maneira de carregarmos nossas melhores lembranças e sentimentos: sempre conosco, em contato com o coração agradecido.

Alex Tarologo

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

OPRESSÃO



OPRESSÃO


Tem gente que se testa o tempo todo. Vai acrescentando, uma a uma, mais obrigações às outras muitas que acumula, só para se provar poderosa. É o Complexo de Super-Homem, de quem tudo pode, como se houvesse uma necessidade intima de provar-se competente, imbatível, indispensável, a única e confiável solução para os problemas de todos os demais.

Costuma justificar-se dizendo que não tem paciência para esperar que os demais cumpram suas respetivas partes, portanto assume toda a responsabilidade sobre o que há para ser feito. Nada o impedirá de perseguir até o fim seus objetivos, nem mesmo o fato de cumpri-los, muitas vezes, de maneira maniqueísta, sem buscar o prazer na execução, mas visando satisfação no simples fato de obter o resultado esperado.

Na centenária imagem do 10 de Paus, criada por Pamela Colman Smith, sob a orientação do Arthur E. Waite, um homem semi-curvado atravessa o campo, dirigindo-se à umas edificações, carregando um enorme feixe de galhos. A alusão ao peso e ao desconforto dos pedaços de Madeira que lhe impedem a visão do caminho, além da forma desajeitada que os galhos estão arfa nados em seus braços, sugerem que, muito provavelmente, teria sido mais sábio ter carregado feixes menores e feito mais viagens, ao invés de sobrecarregar-se.




Assim também é o que vemos na foto no alto da página, onde o homem está praticamente impedido de dirigir seu carro, soterrado por uma impossível quantidade de caixas. Ele também não demonstra nem estar usando o melhor de suas habilidades, nem obtendo nenhum tipo de satisfação na execução de tão absurda tarefa. Na verdade o seu olhar é de uma pessoa oprimida, sem liberdade de manobrar sua condução. Falta-lhe criatividade e flexibilidade, visão do conjunto e consciência da importância das partes.
Do fogo criativo e regenerador do naipe de Paus, só restou a demonstração de força, o cabo-de-guerra que o condutor trava consigo mesmo. "Vou provar que eu sou mais forte do que eles supõem", seu olhar transparece, enquanto que ele se afoga sob o peso dos desafios auto-impostos.
Tolice.

Não é a quantidade de projetos, de idéias, de possibilidades, que definirão a capacidade de alguém, mas a qualidade do resultado e o prazer descoberto e vivido a cada etapa de concretização de cada um dos seus desejos. Fogo é pura paixão incontida, é desejo não domado, é a força vital fluindo e trazendo realização. É liberdade, claridade, luz e calor. Não deveria ser oprimido, aprisionado, limitado, contido.

Os desejos são muitos, as vontades também; o leque de interesses é amplo e as possibilidades, inúmeras. Por que, então, não vive-las uma a uma, experimentando o prazer único que cada uma proporciona em sua realização? Por que, ao invés de buscar alegremente o calor produzido pela fogueira que ilumina a noite escura, ocupar-se apenas da tarefa de carregar a madeira?

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

EM PAZ




EM PAZ

Há, nessa foto, aos meus olhos, uma beleza feita de opostos complementares: Yang e Yin. Céu e Terra. Material e Espiritual. A pedra rude, dura, imobilizada, escamada, modelada pelo tempo, chuvas e ventos, pelos roncos do interior do planeta, é cenário para um dos maiores exemplos da sofisticação do pensamento humano, a música.

Abstratos sons reunidos para expressarem os mais profundos sentimentos abrigados na alma do artista, são executados com elegância, equilíbrio e maestria, como se para amenizarem a desértica paisagem.
Olho uma vez mais a imagem, que me remete à abertura do filme do Kubrick, "2001, uma odisseia no espaço", onde num terreno muito semelhante, habitado pelos nossos darwinianos ancestrais, um irrepreensivelmente geométrico monólito causa estranheza. 
Prenúncio do processo civilizador daquelas simiescas criaturas, vejo-o, novamente, no violoncelista que representa a arte da nossa espécie.

Minha atenção é capturada pela solitária figura desse homem, equilibrando-se elegantemente, aparentemente alheio à primitiva geografia do local. Quanta segurança, quanta experiência, quanta tranqüilidade ele exala ao manusear com destreza e graça o arco de seu violoncelo, inundando aquele pedaço do Universo com sua música.


Ainda que todo o ambiente nos remeta à ideia de dificuldade, agressividade e instabilidade, ele, tranquilo, é a personificação da de toda a evolução do Homem neste planeta. É o retrato da capacidade da mente humana em, alquimicamente, evoluir do estado mais rudimentar de raciocínio a conceitos filosóficos dos mais extraordinários.

E isso necessita de Tempo. E Paciência. Foi preciso que o planeta se alterasse, que oceanos revelassem terras insuspeitas, que espécies surgissem, que seres, os mais diversos, em constante transformação, evoluíssem. Foi preciso sobreviver, procriar, vencer o medo, desenvolver habilidades e, sobretudo, descobrir, muito lentamente, que há um mistério que esconde a verdadeira razão de tudo isso.

Entre a montanha brotando das profundezas da terra e o instrumentista há um lapso de milhões de anos. Ambos são arcanos representantes de seus reinos. Ambos ali estão desde priscas eras, e se reconhecem, e se unem numa brecha qualquer do Tempo, para, juntos, celebrarem a beleza da criação.
E nisso há, ainda, uma beleza maior.

Alex Tarologo

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quinta-feira, 28 de abril de 2016

ACÃO



NA ESTRADA

A foto, ainda que a princípio tenha um aspecto hilário, além de muito criativa é um ótimo exemplo de como podemos "atualizar", por exemplo, a imagem da carta do Carro, Arcano 7 do Tarot.

O que me atrai nesse conceito que o fotógrafo brilhantemente expressou, é a de que somos nós o "veiculo" que vai em busca, que acelera, que se atrasa, cujo pneu fura, ou a turbina pára de funcionar. Somos nós mesmos os pilotos, motorista, aqueles que fazem a máquina funcionar e que a conduzem por tradicionais e seguras rotas pré-fixadas e, algumas vezes, por estradas estranhas e desconhecidas, pelo simples prazer em explorá-las.

Quantas vezes, por comodismo ou medo, pegamos carona no carro alheio, permitindo que eles nos conduzam, acomodando-nos à sua velocidade e destino? Quantas vezes nos deixamos ficar indiferentes aos nossos desejos ou objetivos e, de maneira alienada, entregamos nossas vidas nas mãos dos outros? E em quantas outras lacrimosas ocasiões nos arrependemos disso?

Para ser o piloto, motorista, condutor da nossa própria vida também há que se ter habilitação. Também será necessário provar-se capaz de compreender os sinais de alerta nas ruas e estradas, de saber manobrar com destreza, respeitando leis e obedecendo regras. É preciso mostrar-se habilidoso não somente no arrancar com o veículo, mas também nos momentos mais difíceis de estacioná-lo, quando encontramos o espaço que buscávamos e que se ajusta perfeitamente às nossas necessidades.




E devemos estar atentos à manutenção da viatura. Cuidar do todo e das partes. Da lataria ao computador de bordo. Saber identificar problemas e onde buscar as necessárias soluções. Não deixar que o carro envelheça em sua funcionalidade, ainda que o modelo possa ficar antiquado. Embutir-lhe novas tecnologias para que a segurança de nossas decisões estejam garantidas, beneficiando que completemos nossos planos de viagem.

E, muito importante, é não conduzi-lo sob a influência de nada que possa iludir-nos, desorientar nossa capacidade, diminuir nossa autonomia e embaçar nossa visão do caminho. Pois o carro e seu motorista são um só, fundidos numa única entidade. Se, para assumirmos o controle da direção é necessário que estejamos suficientemente experimentados, para conduzi-lo é preciso sabedoria, destreza, auto-confiança e determinação. É preciso sentir que é chegado o momento exato de acionar a partida e pisar, com firmeza e segurança, no acelerador.

O resto? Bem, o resto vem naturalmente e daí então é só aproveitar a viagem.

Alex Tarologo

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segunda-feira, 18 de abril de 2016

LOUCO






LOUCO


Um homem flutua, segurando balões de gás, sobre as ruas de uma metrópole. Fantástica imagem! A cidade, em seu desenho retilíneo e preciso, na impessoalidade de suas formas, no movimento constante dos carros que trafegam suas ruas e avenidas transportando seus habitantes, na claridade ainda acinzentada do amanhecer (ou será anoitecer?), na altura ciclópica de seus arranha-céus, parece alheia ao homem que flutua por seu céu.
Quem é, o que faz e pensa e para onde vai esse homem, chapéu na cabeça e maleta na mão? Um anjo disfarçado de executivo? Um inventor maluco? Um novo super-herói? O que motiva alguém a lançar-se nas alturas, confiando apenas numa meia-dúzia de balões e ao sabor dos ventos? Quem é esse ... Louco?

Sem número, zero ou 22, a carta do Louco é aquela que simboliza o Tudo e o Nada a um só tempo. Por paradoxal que pareça, ela é todas as outras 21 cartas dos Arcanos Maiores, e nenhuma delas também. É a sabedoria contida em cada uma das lâminas do tarot, adquiridas através da experiência em viver o significado dos seus símbolos, e, no mesmo momento, ela é a tolice de quem ainda vive desconhecendo essas virtudes e sua importância para a própria evolução.

Nas cartas encomendadas pelo ocultista Waite à artista plástica Pamela Smith, essa figura é de um jovem dinâmico, de largos passos, vestido com uma túnica verde florida (a lembrar o Homem Verde, comum em outras mitologias), um chapéu decorado com uma pena que aponta para o céu, e, finalizando, um bastão que prende uma pequena trouxa sobre um ombro e uma rosa branca numa das mãos. O dia ensolarado e a claridade do ar do ambiente montanhoso, tão afastado de onde os homens vivem, atraem seu olhar para o alto, e, ignorante do fato de que está a um ou dois passos de um precipício, caminha destemido para ele. Como companhia, apenas um cão, que percebendo o que está para acontecer, procura evitar que ele salte no vazio, mordendo-lhe o calcanhar.




Essa é a típica figura da espontaneidade, da despreocupação, da extravagância, da coragem e destemor que só os muito loucos ou os muito sábios possuem. Há que acreditar-se muito e ter uma inabalável fé na proteção concedida pelo Universo para intentar algo, aparentemente, tão absurdamente irracional. Mas é exatamente isso que o Louco do tarot está por fazer: arriscar-se. Dar um salto mortal, sem rede de proteção.

O Louco, na taromancia, sempre foi visto como o rebelde, aquele que se sente desajustado diante de uma situação estabelecida; é a pessoa ou o evento que fogem à norma, ou o ingênuo, o inocente, o inexperiente que ainda tem muito a aprender. Ele costuma ser entendido como alguém despreocupado, sem planos para o futuro, sem compromissos com o passado, sem preocupações com o presente. Alguns lhe enaltecem a personalidade, forte, única, pois confia em si e acredita em tudo o que faz. Outros o vêem como algo misterioso, que não consegue ser explicado racionalmente e que, portanto, ameaça a estabilidade daquilo tudo que consideramos normal, apropriado, natural, evidente, seguro, confortável, fácil, óbvio, legal, verdadeiro, estabelecido, conveniente, etc.

Comparando as duas imagens, o que ressalta é que ambos estão prontos para "caminhar no ar", dar um salto para uma nova fase, um novo tempo, um outro lugar, uma nova forma de pensar, uma nova etapa da vida. A possibilidade de aventura contida nesse gesto, nesse passo rumo ao abismo, nesse flutuar por sobre o mundo como o vemos e compreendemos, é a grande qualidade desse Arcano. Sua mensagem é ser autêntico e, para tanto, não temer infringir convenções, abandonar velhos métodos, deixar de lado o medo do inesperado, aceitar as surpresas e permitir-se começar algo novo (mesmo que seja novo apenas para si mesmo), que ainda não tenha sido testado.

Se não houver uma dose de infantil ingenuidade (os balões de gás), de pureza de alma e intenções (a rosa branca), de uma sensação de absoluta liberdade (voar pelo céu, estar no alto das montanhas), de não-conformismo (a extravagância no voar sobre a cidade, de saltar por sobre o abismo), de busca de novas experiências (a mala e a trouxa são pequenas e muito pouco podem levar daquilo que já conseguiu), se nada disso houver, esse homem ainda não está preparado para se iniciado nos mistérios da vida, e que as 22 cartas do tarot revelam.

O Louco é aquele que está aberto a tudo o que o futuro oferece, sem preconceito, sem preocupações, pronto a envolver-se com o inesperado, sentindo-se impelido a lançar-se a grande aventura que Viver por um chamado de fé e absoluta confiança no Universo, crente que tudo vai dar certo.
E lá segue o homem que voa segurando-se aos balões, flanando pela brisa que envolve a cidade, espírito livre, aproveitando cada inesperada oportunidade, buscando a si mesmo e encontrando-se em cada novo aprendizado, em cada nova experiência.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 4 de abril de 2016

JUSTIÇA





Todas as vezes que olho para a imagem acima me pergunto: o que é que o homem sentado em frente aos seus investigadores tem a dizer ou a esconder? Qual é a história desse personagem e por que ele se encontra nessa situação? O que querem saber dele as frias, calculistas, “científicas” figuras que o analisam em minúcias? E o que estará escrito nas folhas do manual ou laudo dos que o avaliam?
O homem, pela imagem refletida nos espelhos dos microscópios, tem o rosto tenso, nervoso, de quem teme o resultado da sua avaliação.
Seus julgadores, por sua vez, tem o olhar impessoal, frio, atento, investigativo, de quem considera unicamente os fatos, de forma analítica, despidos de qualquer paixão ou outro interesse pelo ser humano à sua frente. Aliás, nem mesmo nisso ele se parecem. Já nem mais corpos, como os da nossa espécie, possuem, mas estão transformados em instrumentos de pesquisa, ampliando os detalhes sob possantes conjuntos de lentes.

Encontro semelhanças no olhar abstraído dos 3 julgadores com o da figura da Justiça do tarot Rider-Waite. É um olhar que parece não estar concentrado no que se vê, mas ultrapassa a camada mais evidente da realidade, em busca da essência do personagem ou do fato. Pois a Justiça não deve ater-se às aparências, pois as sabemos enganosas, e sim utilizar do seu instrumental (a espada, no caso da carta do tarot, ou as lentes de aumento, no caso da imagem em questão) para obter respostas que não permitam evasivas, subentendidos, ou mesmo, desculpas.




Imparcialidade tanto no processo investigativo quanto no julgamento é o que essa espada em riste, que a mulher da carta do tarot segura, significa. Ela oferece a mesma condição de análise, o mesmo critério e extensão de julgamento, o mesmo tipo de punição em ambos os lados da lâmina. Não beneficia ou privilegia a nada ou ninguém. Não tem opinião própria, pois baseia-se em fatos, em evidências, em medidas e critérios criados pela sociedade como um todo, a cada época, para regular o convívio social.

Todos os aspectos relacionados à questão são beneficiados com a mesma imparcialidade, representada pelos pratos nivelados da balança, ou, no caso da ilustração acima, pelo número ímpar de “juízes”, todos com as mesmas características e semelhanças. Essa maneira de “ver” a todos sob a mesma ótica, beneficiando-se das mesmas condições, é traduzido pela imagem da Justiça “cega”, com os olhos vendados, indiferente às diferenças naturais dos seres humanos. Todos são iguais perante a lei, é uma afirmação que justifica a venda sobre os olhos, eliminando a complacência do olhar apaixonado e permitindo que apenas a razão pura prevaleça.

Justiça é uma virtude e um ideal. Um critério que sofre alterações constantemente, acompanhando a evolução das mulheres e homens que habitam este planeta. Se a ideia do que é justo é algo divino, as leis que a descrevem, regulam e sacramentalizam são criadas por seres em evolução e, portanto, passiveis de cometerem constrangedores enganos em seu nome.

Ainda que esse Arcano possa representar assuntos relacionados com a Justiça dos homens (ações, processos, juízes, advogados, promotores, audiências, causas, pareceres, documentos, etc), ela fala diretamente ao padrão ético e moral de cada indivíduo. É sobre como analisamos, investigamos, tiramos conclusões e aplicamos julgamentos nos fatos e nas pessoas que permeiam nosso dia a dia que essa carta se relaciona. O quanto somos, ou não, tendenciosos, irresponsáveis, prepotentes, relapsos, venais, cruéis, capazes, justos, rigorosos, sérios, descomprometidos ou éticos ao avaliarmos as ações alheias.

Quando olhamos a imagem do homem sentado, quase acuado, ansiedade estampada no rosto e na postura, frente aos seus inquisidores, também nos leva a pensar que estamos constantemente sendo avaliados em nossa conduta e desempenho. Seja no trabalho, no âmbito familiar, pelas nossas posições políticas, filosóficas ou religiosas, pela nossa conta bancária, pelos nossos talentos ou a falta de alguns deles, onde moramos, como nos vestimos e comportamos, o que ou quem frequentamos e, até mesmo, pela nossa aparência física, há sempre algum tipo de julgamento sendo realizado.

Se a perfeita ideia de Justiça é tão somente um ideal, que possamos dele nos utilizar da mais perfeita forma para que todos possamos viver dignamente, respeitando diferenças para nunca incorrermos no triste fato de desequilibrar os pratos da balança e, com isso, a harmonia no Universo.


Alex Tarólogo

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