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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

AS TENTAÇÕES



Desde a primeira vez que vi essa foto associei-a àquela imagem do 7 de Copas, criada pela Pamela Smith para o Tarot do Waite.

Independente de todos os possíveis significados, inclusive alguns bastante divergentes, atribuídos à carta, ela sempre me pareceu a fotografia de alguém frente a uma vitrine, dessas das grandes lojas. Literalmente hipnotizado pelas possibilidades de ofertas, a figura central está alheia a nós que o observamos, e ao mundo. A sensação que essa imagem sempre me passou é a de alguém vivendo um momento de absoluta entrega aos prazeres do consumismo, das fantasiosas possibilidades que a propaganda e a publicidade criam e que nos convencem a querermos ter. É aquele momento em que nos perguntamos: "como é que eu pude viver sem isso até hoje???


Consumir além do necessário, pode ser viciante. Não, eu não faço parte daquele grupo que acredita pia e entusiasticamente que devemos nos contentar com pouco, não adquirir, nem almejar, aquilo do qual não temos a mais imediata necessidade, e desconfiarmos de tudo o que a publicidade, tida como a máquina que movimenta a economia, nos empurra garganta abaixo.

Mas também, claro que sei que há limite para tudo e que nunca se deve comprometer o que não se tem para ter-se o que se quer, por capricho. Não irei fazer aquela apologia do "gaste agora, compre tudo o que quiser. Depois a gente dá um jeito". Obviamente, não. Mas também não fiz voto de pobreza e nem pertenço a uma ordem trapista. Os recursos do novo celular, a ser lançado para o Natal, já me faz olhar para o meu, como uma relíquia de 6 meses de idade...

As tentações possuem tentáculos. Obvio, não é mesmo? Assim elas nos arrebatam da nossa pacifica, e maçante vidinha comum e nos transportam para uma aventura digna de best-sellers e filmes de ação. Subjugam nossa vontade, ignoram qualquer lógica ou razão, e nos seduzem com a idéia de que seremos totalmente felizes se adquirirmos tudo o que quisermos, encontrarmos prazer com qualquer um, formos reconhecidos e bajulados por aquilo que temos e fazemos absoluta questão em exibir, naturalmente.


E, por que não por aquilo que somos ?, poderão me perguntar. Porque, em diversas situações, o que realmente somos deixou de existir, cedendo lugar a um ser movido exclusivamente por sensações, ilusões, fantasias, paixões, desejos e poderes temporários, de brevíssima duração. Eternamente insatisfeitos, sempre sentindo um vazio não identificável, vamos nos deixando arrastar, iludidos de que ainda temos algum controle sobre nossa vontade, nossos impulsos.

Na melhor das hipóteses, conseguimos a custo de muito sofrimento, e com o apoio de familiares, amigos e profissionais, nos libertar da compulsão de cedermos aos nossos instintos menos apreciáveis, aos nossos devaneios mais absurdos, aos nossos mais deploráveis vícios. Grupos de apoio existem e são eficazes nesse momento. Não é covardia e nem pouca auto-estima, reconhecer-se fraco, carente e dependente. Ao contrário, é preciso ser muito lúcido, para tanto. Ninguém vence todas as armadilhas que fazem do viver, especialmente sob o peso da observação, crítica e jugo social, uma arte.

Olhe bem para o simpático polvo (há muito tempo o Diabo deixou de lado o aspecto monstruoso e o aroma de enxofre...) no topo desta página, tão cheio de ofertas, de possibilidades, de pequenas e atraentes fantasias. Optar por qualquer delas pode resultar em ter de lutar pela própria vida, no fundo de um mar... de dívidas!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

PENDURADO





PENDURADO

O jogo “da forca” é aquele em que, a cada letra errada para formar uma determinada palavra, o jogador vai acrescentando mais uma parte ao desenho que o representa. O que ele não pode, ou deve, deixar que aconteça, é cometer um número de erros suficiente que seu avatar iconográfico fique completo. O pior é que essa figurinha enquanto vai sendo completada, pelos erros do jogador, vai sendo enforcada. O Jogo começa com a corda, a estrutura do cadafalso e a “palavra secreta”.
A foto acima tem muito dessa brincadeira. O indivíduo vai criando marcas nas paredes, que talvez representem os dias em que está encarcerado ou, mesmo, os seus erros. Enquanto isso, vai-se formando, membro a membro, a figura a ser enforcada. E, note-se, o próprio homem já está com uma corda no pescoço...

Quase todas as vezes que observo as diversas representações artísticas do Arcano XII, o Pendurado (que muitos, devido a uma tradução literal do nome inglês dessa carta, o chamam de Enforcado), penso em situação semelhante à da imagem acima. Tudo nele me lembra um tempo forçado de reclusão. Uma época em que nada progride. Uma ameaça que a presente situação pode ainda piorar...
Se a origem da carta está, ou não, ligada a punições, ritos de passagem, à desmoralização, isso é pouco perto da maneira explícita que ela costuma ser ilustrada.

Sem dúvidas, ficar pendurado por uma perna deve ser, antes de mais nada, algo altamente doloroso. Uma tortura. Além do fato de que seria necessário um grande preparo físico, talvez o de um atleta olímpico, para a própria pessoa conseguir flexionar-se de livrar-se da amarra. Ainda assim corre o risco de cair de cabeça.




Tem-se que considerar também o fato de que, imobilizado, o sujeito não tem condições de exercitar seu direito de ir e vir, o seu livre arbítrio quanto às opções de onde estar. Como se isso já não fosse o suficiente, ficar numa situação inversa aos demais expõe o indivíduo ao escárnio alheio. Torna-se motivo de chacota. Tem sua autoestima aviltada. O Ego reduz-se a uma sombra do que já foi.
Ninguém opta por esse tipo de situação de boa vontade ou porque assim o quer, a não ser, é claro, aqueles que vivem de fazerem-se de “pobres vítimas de um destino cruel, enjeitados por todos, frutos do desprezo de um deus cruel”. Normalmente, quando nos vemos nesse triste papel de Pendurados, é porque não tínhamos outra opção. Temos que vive-lo, em sua extensão, esperando que, ao menos, sua duração seja breve e que possamos descobrir logo a "palavra oculta", a razão do porque estarmos envolvidos em tal episódio, e nos safarmos da corda que vai, como no jogo da forca, se apertando em nossos pescoços.

Eu me pergunto se, enquanto passamos por situações que nos limitam a ação, nos sufocam, que nos obrigam a rever toda uma filosofia de vida, que nos forçam a esperar por resultados que parecem nunca acontecer, se realmente acreditamos numa recompensa qualquer para esse tipo de, digamos, tortura. Quase todas as ilustrações que conheço desse Arcano, acrescentam um halo de luz, numa referência quase explícita à divindade ou à iluminação interior, no pobre coitado que balança pendurado pelo pé. Isso para nos recordar, penso eu, que todo sacrifício nos redime, eleva, nos torna melhores e deles saímos mais sábios, experientes, preparados, com um outro olhar sobre tudo e todos.
Pode mesmo ser isso, e eu espero sinceramente que assim o seja.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

DIABO




DIABO

O que me intriga nessa ilustração é a idéia de drama, de condenação, de sofrimento, de dor e, também, de possível redenção.
A figura do homem preso a um espinheiro e envolto por uma potente serpente, cuja boca escancarada prenuncia mais dor, sofrimento e morte, tudo isso num idílico e florido cenário, talvez o bíblico paraíso perdido, é, para mim, um bom comparativo, em termos de simbologia, com o Arcano XV do tarot, o Diabo.

Afinal quem, ou o que, é o Diabo? Quem é essa figura que perpassa a história da humanidade provocando sofrimentos de todas as espécies? Que enorme poder é esse que consegue derrotar a tal perfeição da criação divina? Que espaço, que lugar ele ocupa dentro desse Todo onipotente, omnipresente, a quem chamamos, entre outros nomes, de Deus? Se Deus (ou o nome que preferirem chamar, ou não, ao criador de todas a coisas) está presente e ocupa todos os lugares, até mesmo porque Ele é o Todo, onde então reside aquele ou aquilo a que chamamos de Mal? Qual é o espaço deixado vago por esse Deus presente e preenchendo todos os lugares, no qual o Mal habita? No coração e na mente dos homens? Mas se somos a imagem e a semelhança de quem, ou o que, nos criou, então, por mera dedução, o Mal que em nós reside é decorrente dessa herança genética... Se há um vácuo deixado para ser ocupado por qualquer outra coisa, ou entidade, então cai por terra o conceito assumido da omnipresença, omnisciência e omnipotência divina. Ou não.

Mas, conceitos e discussões teológicas `a parte, pois o que nos interessa aqui é a discussão comparativa entre as imagens, seus símbolos e significados, basta olharmos para o alto da ilustração para vermos, mãos espalmadas num ato receptivo, o que poderiamos interpretar como as "mãos" de Deus. Deus, envolto em uma nuvem de alvas flores e representado graficamente por um gesto de acolhimento, paira acima da sua criação, pronto para estender-lhe, novamente, os benefícios do Paraíso recusado. Ainda que a humanidade possa caminhar pelo vale das sombras, enfrentando os perigos da noite da alma, temendo o abandono nas profundas prisões do sofrimento, mesmo assim, num estado mais elevado da sua consciência, existe algo capaz de libera-lo.

Só sabemos o que é sofrer porque também conhecemos o estado de alegria; compreendemos o que é estar doente pois podemos comparar com o que é sentir-se bem e saudável; temos a noção da extensão dos efeitos de uma guerra por entendermos os benefícios dos tempos de paz; podemos não saber explicar perfeitamente o sentimento do amor, porém estamos conscientes que ele não é a mera paixão. Vivemos entre opostos, entre luz e sombra, entre extremos. O tão buscado "caminho do meio" nada mais é do que compreender onde se situam os limites, as fronteiras entre o Bem e o Mal absolutos, entre o que denominamos Deus e Diabo.

Sem tentar reinventar a roda, poderíamos refletir a respeito do conceito de que Deus, o Bem, o Positivo, é
o lado Luz, o lado vivo e progressivo de tudo, enquanto que o Diabo é aquilo que O justifica, Sua sombra, seu oposto complementar, aquilo que não pode ser chamado de bom, mas o Mal, o Negativo, o Destruidor, sem o qual não poderíamos compreende-Lo.
O Diabo, representa o que é menos elevado na natureza humana. É nossa condição de cegos para a luz, para a verdade e, portanto, para a felicidade (Paraíso). É nossa incapacidade de, ignorantes que somos, reconhecer que podemos, por opção, escolher o oposto, decidir por aquilo que possa nos trazer o contrário do Mal que vivenciamos. É um aspecto menos evoluído da nossa capacidade de abstração, que nos impede de "erguer os olhos do chão", de deixar de focar apenas os aspectos materiais e imediatistas da existência e buscar um sentido muito maior para tudo o que fazemos e provocamos.

 
 


Se na representação do Arcano XV, na quase absoluta maioria dos tarots existentes, encontramos uma figura muito mais animalesca do que humana subjugando um casal, é mesmo para reforçar a idéia de que o Mal é algo que vive na escuridão, mais ou menos escondido (tudo vai depender das nossas opções...) dentro de nós. Quando a ele concedemos o devido poder, nos domina e escraviza, mantendo-nos prisioneiros nas trevas da ignorância, enclausurados nas profundas cavernas do nosso medo, do desespero, da aflição, da falta de fé, da dependência, da desmedida ambição material.
Impedidos de vislumbrarmos o seu oposto, que é a própria liberdade de melhores escolhas, nos tornamos mineiros encerrados na busca de uma pedra preciosa qualquer, qualquer coisa que possa pretender justificar tudo aquilo que deixamos de ser quando optamos em, apenas, ter.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

EMPATE





EMPATE

A imagem de um prendedor de roupas, cada uma de suas partes de uma cor, como que dialogando entre si, pode ser comparada, em termos de simbologia, com o significado tarológico da carta do 2 de Espadas.
A figura pintada por Pamela Colman Smith para essa carta do tarot do Waite, onde uma figura vendada (sem fazer escolhas óbvias, racionais, influenciadas pelas aparências), está sentada (não tem pressa, a situação é demorada e demanda ajustes) de costas para o mar e a noite enluarada (evitando deixar-se decidir de forma unicamente emocional ou intuitiva), segura duas espadas de igual forma e tamanho (problemas, opiniões, possibilidades, opções, idéias, ações, etc. iguais em conteúdo e conseqüências), também expressa um conflito.
É uma decisão a ser tomada para a resolução de um problema, porém envolvendo opções que possuem o mesmo peso e medida. Ou seja, fica-se entre a cruz e a fogueira. É um beco sem saída.

Interessante observar que a carta 2 de Espadas retrata um momento de aparente paz. Há um silêncio, uma inatividade, uma imobilidade bastante frustrante e constrangedora na imagem. As espadas cruzada sobre o peito da mulher não irão permanecer nesse forçado equilíbrio por muito tempo. Mas, tempo é o que ela precisa para poder optar com maior segurança. Então, sentada, alheia às suas emoções e evitando confrontar-se com a realidade, ela espera.




E aí surge uma possível analogia com a ilustração do prendedor de roupas. Sua função é a de segurar, prender, imobilizar a roupa enquanto ela seca. Não é ele o agente da ação, mas um coadjuvante indispensável. Sem ele as roupas voariam ao sabor do vento e, ao invés de secarem, se perderiam ou se sujariam novamente. Ele controla o tempo para que a ação de secagem aconteça, realizada pelo sol e pelas correntes de ar.

O 2 de Espadas sugere ambivalência, conflito de interesses e opiniões aguarda-se uma escolha definitiva. Um trégua ou um acordo podem estar existindo, entretanto a situação não está resolvida e o problema continua ali, esperando uma solução. Talvez seja chegada a hora de parar de procrastinar e agir, optar, decidir, escolher. Talvez, não. Pode ser que a figura da carta do tarot esteja aguardando, sem decidir-se, esperando que a situação se resolva por si mesma, por fatores externos, sem o seu comprometimento.

No desenho do pregador de roupa, ambas as partes são iguais e válidas, necessárias para o funcionamento do artefato, ainda que opostas, antagônicas. Mas ele, também, não decide como ou em quanto tempo a roupa deve secar. Fica lá, parado, prendendo a situação, aguardando que o clima e o tempo decidam como, quando e porque faze-lo. Enquanto isso, espera.

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM TRÂNSITO





EM TRÂNSITO


A imagem de uma garrafa, que abriga em seu interior uma mensagem, vinda dar a uma praia qualquer é sempre interessante, ainda que seja um lugar comum em romances e filmes. O mar, nesse caso, funciona como um carteiro, cumpridor de sua missão, e que sabe onde entregar a “correspondência”.
Na verdade, não é uma correspondência, pois não há a menor condição de resposta. Para onde enviar? É, mesmo, uma mensagem. Uma declaração, um depoimento, um testemunho, uma consideração, um aviso, algumas reflexões, uma piada.

A imagem da garrafa lançada ao mar, que navega mares e oceanos, enfrenta perigos diversos na forma de tempestades, o sol implacável, animais, ventos, correntes marítimas, até aportar nas areias mornas e esperar que alguém a abra e leia se conteúdo, traz consigo uma ideia de um dever solitário.
Quando vi a foto acima, de imediato associei-a ao 6 de Espadas. É até bastante óbvio pois temos, em ambas, o elemento mar, a nave (barco/garrafa), a figura feminina à mercê de ser conduzida (pelo navegador do barco ou pelo destino).

Difícil, observando-se ambas, não associá-las à viagens, mudanças, transporte, transferência. E isso também está contido em seu significado taromântico. Entretanto, por estarmos lidando com uma carta do naipe de Espadas, estamos na esfera do racional, do pensamento abstrato, da análise mental, do discernimento, da verdade, das questões éticas e morais, do cálculo, da objetividade, da precisão.
O que é que essa mulher coberta por uma escura capa e abraçada a uma criança (?) transporta, em forma de 6 espadas? E para onde vai? E quem é o homem que dirige a embarcação?
Ou seja, esse conjunto de personagens em uma determinada situação que beira o surreal (afinal, 6 espadas fincadas no fundo de um barco de madeira não é muito normal...) é que inspira as associações e respostas que cada um obtém da sua atenta observação.

Mas não podemos desconsiderar duas coisas: mudança e raciocínio.




Olho, novamente, ambas imagens e creio ver alguém buscando um novo lugar onde seu conhecimento, seus princípios, aquilo em que ela acredita, a sua forma de pensar e avaliar o mundo encontrem guarida, encontrem ressonância, possam ser apreciados. É como se ela estivesse pensando: “Os incomodados que se retirem”, e ela própria abandonasse uma posição anterior, levando em sua bagagem aquilo que é seu (sua maneira de pensar e interpretar a realidade) e buscasse um porto seguro para si e para os seus.
Isso parece não acontecer de maneira muito fria ou calculista, pois é pelos mais ou menos conturbados movimentos das emoções, entre ondas e calmarias, que essa viagem se processa. Algo de importante, emocionalmente, deve ter sido abandonado em função dessa mudança. Grandes expectativas, geradoras de angústias e temores, fazem parte dessa resolução.

Chegará, ela, ao seu destino final exatamente como partiu? Terão o tempo no mar, o balanço do barco, a ausência de terra firme, a distância percorrida, o possível diálogo com o barqueiro (um mestre, um guru, um professor, um orientador?) modificado algo em sua filosofia, naquilo em que crê, em sua maneira pessoal de captar o ambiente que a cerca, na forma em que compactua ou rejeita a opinião e a verdade alheia? Talvez não. Provavelmente sim. Isso sempre dependerá de quanto ela está disposta em rever seus conceitos, reorganizar suas estruturas mentais, ter uma mente investigativa a tal ponto que a impulsiona a novas descobertas, análises e comparações.

De qualquer forma, ela mesma, essa mulher na garrafa, é a mensagem. Uma missionária de sua própria causa, navegando solitária, porém protegida por aquilo que sabe, que conhece.
Na garrafa, seu timoneiro é o próprio Universo que, muito possivelmente, irá desembarcá-la onde ela sempre deveria ter estado.


Alex Tarólogo

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quarta-feira, 8 de junho de 2016

EMOÇÕES





EMOÇÕES

Finalmente encontro, na imagem do poster acima, retratada de forma mais positiva, a saída daquele estado de profunda decepção do 5 de Copas.

Se observarmos bem a carta de tarot abaixo, pintada por Pamela Colman Smith para o tarot concebido pelo Waite, o que mais chama a atenção é a soturna figura humana, totalmente coberta pela enorme capa do luto que dela se apossa quando da constatação que 3 taças estão partidas, a seus pés. Sendo o naipe de Copas aquele que representa nossos sentimentos (amor, ódio, arrependimento, decepção, tédio, alegria, pesar, amizade, etc), o líquido contido nessas taças é tão fluido, escorregadio e volátil quanto as emoções que representa.

A negra figura lamenta profundamente a perda sofrida. Provavelmente havia investido todas as suas esperanças afetivas em alguém que, ao final, a decepcionou. Sente-se só, abandonada, afastada do convívio social, inerte, sem vontade de tomar a iniciativa de cruzar novamente o rio de suas emoções, desta vez mais experiente e com a possibilidade de utilizar-se do artificio de uma ponte, e reintegrar-se ao convívio do seu grupo.




Tão profunda é a sua dor que o paralisa e impede que veja que outras taças estão à sua espera. Não consegue lembrar-se de que nem tudo foram perdas, e que momentos felizes também foram vividos. Não consegue perceber que outras oportunidades estão à sua espera, bastando que ele pare de lamentar-se por aquilo que já se perdeu e dê a si mesmo uma nova chance.

Observando a antiga publicidade de um bom vinho do Porto, não pude evitar comparar as duas figuras e imaginar que o homem do poster poderia ser o mesmo do 5 de Copas, só que restabelecido, novamente ativo, pronto para seguir viagem, proporcionar-se novos motivos para sentir-se feliz. Quero acreditar que, tendo vivido intensamente a sua dor, ele tenha, finalmente, sepultado os sentimentos mórbidos, fossem de culpa ou de auto-piedade, e, livre das amarras da frustração, do medo, da vergonha, tenha se voltado e encontrado as taças remanescentes.

A sensação de que tudo esta perdido, de que nada mais vale a pena, de que não teria mais coragem para recomeçar, tudo isso desaparece ao perceber que a fonte que abastece as taças é a nascente de um caudaloso rio. Consciente disso, segue em frente, carregando cuidadosamente como a um troféu, as emoções que ainda pretende viver.

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 30 de maio de 2016

SEM SAÍDA




ENROLADO

Encontro um amigo e, quando pergunto como vai, ele responde com um "Enrolado, sabe como é...". Uma aluna me liga dizendo que não poderá vir à aula de hoje porque está "toda enrolada, com hóspedes em casa, filhos retornando às aulas, sem cabeça pra nada...". Um amigo de muito tempo, recém separado, passa para contar que está com a situação amorosa novamente "enrolada". Daí então me deparo com a foto acima e começo a rir, sozinho, substituindo mentalmente a figura atada ao novelo pelos meus interlocutores.

Quantas e quantas vezes vivemos situações em que nos sentimos completamente envolvidos, "enrolados" com dificuldades em optar,  por estarmos vivendo contradições, estarmos sofrendo com pequenas ou grandes mentiras, ou com o acúmulo de assuntos pendentes, ou pelas cobranças feitas por esposa, filhos, funcionários, chefes, amigos, clientes, etc? Creio que todos, em algum momento, tenham vivido esse sentimento de incapacidade em encontrar soluções razoáveis para os desafios que enfrentavam.


A expressão "enrolado" bem define o grau de envolvimento em que a "vítima" se acha na situação, bem como ela se percebe de mãos e pés atados (e isso é outra expressão com o mesmo significado), impedida de retirar a venda da ignorância e da duvida, que a impedem de ver claramente o problema como um todo e suas partes constituintes. Assim sendo, tateia, às escuras, impedida de evoluir e agir. Sem ação, devido às cordas que lhe prendem os braços e as mãos, não há como desembaraçar-se e caminhar para um resultado satisfatório.

Enrolado está o rapaz que vai-se comprometendo cada vez mais com a namorada, fazendo-lhe promessas e, ao mesmo tempo, mortificado em ter que abandonar a tal liberdade da vida de solteiro. Enrolada está a pessoa que inventa mentiras "inocentes" para justificar erros que, ela bem sabe, estão sendo descobertos. Enrolado está aquele que comprometeu seu salário, economias e bom-senso gastando o que tinha e o que tinha esperanças em vir a ter, para satisfazer, momentaneamente, o ego e dar uma festa nababesca a um enorme grupo de amigos.
Enrolados nos sentimos, todos, quando perdemos a coragem, quando criamos fantasias mórbidas que nos fazem frágeis e temerosos de tudo e de todos, petrificados de terror diante da vida.

O melhor de tudo é reconhecer que essa situação não nos foi imposta, mas criadas por nós mesmos. Portanto o fio da meada que nos enrola está em nossas mãos, ou melhor, em nosso aspecto racional. Basta que deixemos o pânico de lado, olhemos a situação criteriosamente, da maneira mais objetiva e analítica possível, recuperemos a razão e o equilíbrio, e reorganizemos planos e ações efetivas que nos libertem da teia de enganos, fantasias e confusões que criamos.

Assim, "desenrolados", poderemos corajosamente enfrentar e resolver, com precisão, as pendências e evoluirmos, em busca de melhores dias.

Alex Tarólogo

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

TESOURO







TESOUROS DO CORAÇÃO


Onde se pode guardar a felicidade de tal forma que ela permaneça "conservada", inalterável em suas qualidades, preservada da "poluição" e tudo o mais que possa aviltar seus méritos e virtudes?

O trabalho desse artesão que, dentro de um diminuto frasco, eternizou sua ideia de perfeita felicidade fez com que eu imediatamente lembrasse da imagem criada por Pamela Colman Smith para a carta 10 de Copas do Tarot do Waite.

Harmonia, alegria, amor, contentamento nas relações familiares, sociais ou trabalhistas é a essência dessa carta. Ainda que ela se refira, primariamente, à felicidade doméstica, ela é a consequência direta do 2 de Copas, que simboliza o encontro, o contato, o vínculo que estabelecemos com o outro e que, esperançosamente, resulta na sua expansão, agregando outros mais pelos caminhos de seu desenvolvimento.

Se a família, grande ou pequena, é consequência do encontro e comprometimento de duas pessoas, ela também arregimenta a família, os amigos, os conhecidos de ambos os enamorados. Cada um traz seu grupo afetivo para a união. E a soma e equilíbrio entre essas contribuições resulta numa sensação de segurança emocional extremamente satisfatória e produtiva.




Na imagem da lâmina do Tarot um casal e seus filhos demonstram, na sua contemplativa saudação ao arco-íris que se forma sobre suas pessoas e propriedade, uma gratidão que provém do mais fundo de suas emoções. Se o arco-íris é um dos símbolos da presença divina em comunicação com as criaturas, esse grupo de personagens, unidos, expressam seu reconhecimento e encantamento pela "colheita" das bênçãos que lhes foram conferidas.

Também no universo miniaturizado criado pelo artista percebe-se esse mesmo desejo de expressar um estado de harmonia emocional tão importante que se deseja eternizá-lo.
Problemas, dificuldades, insatisfações, quem não as tem, em algumas etapas do caminho? Fazem parte do processo de aprendizagem de todo ser humano. Só sabemos o que é dor ou sofrimento porque conhecemos, e podemos comparar, com a sensação de bem estar e outros aspectos mais saudáveis do viver. Portanto, é natural querer preservar, pelo maior espaço de tempo possível, as condições de alegria e conforto que encontramos quando observamos e vivenciamos os pequenos milagres que a vida constantemente nos concede.

Olhando a imagem da pequena paisagem construída numa garrafinha que pode ser carregada no bolso, penso ser assim a melhor maneira de carregarmos nossas melhores lembranças e sentimentos: sempre conosco, em contato com o coração agradecido.

Alex Tarologo

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

OPRESSÃO



OPRESSÃO


Tem gente que se testa o tempo todo. Vai acrescentando, uma a uma, mais obrigações às outras muitas que acumula, só para se provar poderosa. É o Complexo de Super-Homem, de quem tudo pode, como se houvesse uma necessidade intima de provar-se competente, imbatível, indispensável, a única e confiável solução para os problemas de todos os demais.

Costuma justificar-se dizendo que não tem paciência para esperar que os demais cumpram suas respetivas partes, portanto assume toda a responsabilidade sobre o que há para ser feito. Nada o impedirá de perseguir até o fim seus objetivos, nem mesmo o fato de cumpri-los, muitas vezes, de maneira maniqueísta, sem buscar o prazer na execução, mas visando satisfação no simples fato de obter o resultado esperado.

Na centenária imagem do 10 de Paus, criada por Pamela Colman Smith, sob a orientação do Arthur E. Waite, um homem semi-curvado atravessa o campo, dirigindo-se à umas edificações, carregando um enorme feixe de galhos. A alusão ao peso e ao desconforto dos pedaços de Madeira que lhe impedem a visão do caminho, além da forma desajeitada que os galhos estão arfa nados em seus braços, sugerem que, muito provavelmente, teria sido mais sábio ter carregado feixes menores e feito mais viagens, ao invés de sobrecarregar-se.




Assim também é o que vemos na foto no alto da página, onde o homem está praticamente impedido de dirigir seu carro, soterrado por uma impossível quantidade de caixas. Ele também não demonstra nem estar usando o melhor de suas habilidades, nem obtendo nenhum tipo de satisfação na execução de tão absurda tarefa. Na verdade o seu olhar é de uma pessoa oprimida, sem liberdade de manobrar sua condução. Falta-lhe criatividade e flexibilidade, visão do conjunto e consciência da importância das partes.
Do fogo criativo e regenerador do naipe de Paus, só restou a demonstração de força, o cabo-de-guerra que o condutor trava consigo mesmo. "Vou provar que eu sou mais forte do que eles supõem", seu olhar transparece, enquanto que ele se afoga sob o peso dos desafios auto-impostos.
Tolice.

Não é a quantidade de projetos, de idéias, de possibilidades, que definirão a capacidade de alguém, mas a qualidade do resultado e o prazer descoberto e vivido a cada etapa de concretização de cada um dos seus desejos. Fogo é pura paixão incontida, é desejo não domado, é a força vital fluindo e trazendo realização. É liberdade, claridade, luz e calor. Não deveria ser oprimido, aprisionado, limitado, contido.

Os desejos são muitos, as vontades também; o leque de interesses é amplo e as possibilidades, inúmeras. Por que, então, não vive-las uma a uma, experimentando o prazer único que cada uma proporciona em sua realização? Por que, ao invés de buscar alegremente o calor produzido pela fogueira que ilumina a noite escura, ocupar-se apenas da tarefa de carregar a madeira?

Alex Tarólogo

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

EM PAZ




EM PAZ

Há, nessa foto, aos meus olhos, uma beleza feita de opostos complementares: Yang e Yin. Céu e Terra. Material e Espiritual. A pedra rude, dura, imobilizada, escamada, modelada pelo tempo, chuvas e ventos, pelos roncos do interior do planeta, é cenário para um dos maiores exemplos da sofisticação do pensamento humano, a música.

Abstratos sons reunidos para expressarem os mais profundos sentimentos abrigados na alma do artista, são executados com elegância, equilíbrio e maestria, como se para amenizarem a desértica paisagem.
Olho uma vez mais a imagem, que me remete à abertura do filme do Kubrick, "2001, uma odisseia no espaço", onde num terreno muito semelhante, habitado pelos nossos darwinianos ancestrais, um irrepreensivelmente geométrico monólito causa estranheza. 
Prenúncio do processo civilizador daquelas simiescas criaturas, vejo-o, novamente, no violoncelista que representa a arte da nossa espécie.

Minha atenção é capturada pela solitária figura desse homem, equilibrando-se elegantemente, aparentemente alheio à primitiva geografia do local. Quanta segurança, quanta experiência, quanta tranqüilidade ele exala ao manusear com destreza e graça o arco de seu violoncelo, inundando aquele pedaço do Universo com sua música.


Ainda que todo o ambiente nos remeta à ideia de dificuldade, agressividade e instabilidade, ele, tranquilo, é a personificação da de toda a evolução do Homem neste planeta. É o retrato da capacidade da mente humana em, alquimicamente, evoluir do estado mais rudimentar de raciocínio a conceitos filosóficos dos mais extraordinários.

E isso necessita de Tempo. E Paciência. Foi preciso que o planeta se alterasse, que oceanos revelassem terras insuspeitas, que espécies surgissem, que seres, os mais diversos, em constante transformação, evoluíssem. Foi preciso sobreviver, procriar, vencer o medo, desenvolver habilidades e, sobretudo, descobrir, muito lentamente, que há um mistério que esconde a verdadeira razão de tudo isso.

Entre a montanha brotando das profundezas da terra e o instrumentista há um lapso de milhões de anos. Ambos são arcanos representantes de seus reinos. Ambos ali estão desde priscas eras, e se reconhecem, e se unem numa brecha qualquer do Tempo, para, juntos, celebrarem a beleza da criação.
E nisso há, ainda, uma beleza maior.

Alex Tarologo

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terça-feira, 10 de maio de 2016

FAXINA






FAXINA

Creio ser impossível olhar com absoluta indiferença para essa foto. O indivíduo, decapitado, aguarda, até que tranqüilamente, enquanto sua cabeça é literalmente agitada dentro da máquina de lavar roupas.
Seu rosto, num ricto de dor e desespero, deixa claro que, ainda que o corpo não demonstre, o que vai pela sua cabeça é pertubador e, sobretudo, que o processo de higienização não é dos mais confortáveis.
Entre outras possibilidades associativas que essa foto me induz, a Torre, Arcano XVI do Tarot é a que mais se destaca.
Basta olharmos para a maioria das interpretações artísticas desse Arcano para vermos que o raio divino, o relâmpago da consciência, atinge o topo da torre. E, quase sempre, há uma coroa encimando essa construção que se despedaça, do alto, em consequência de um evento alheio ao seu controle ou à sua vontade. Afinal, quem controla os desígnios divinos?

Se fizermos um paralelo entre a figura humana e a Torre, veremos que sua posição também é ereta, altiva. Destaca-se da paisagem que a cerca e elevando-se, o mais possível em direção aos céus, à morada dos deuses, ao Olimpo, o Éden onde gostaríamos de viver, semi-deuses que acreditamos ser. Em nossa volúpia pelo poder, em nossa ambição em sermos donos e senhores de tudo e de todos e, até, dos nossos destinos, construímos um ego de desmedidas proporções. Tão fascinados estamos com nossa estatura e o quanto ela nos permitirá alcançar, que chegamos a nos esquecer da base, do terreno em que nos apoiamos, da fragilidade dos elementos em que nos apoiamos para nos destacarmos dos demais.
Como o Dr. Frankenstein, do romance da Mary Shelley, não sabemos, ao final, o que fazer com o Monstro que criamos, remendando pedaços nem sempre compatíveis e, muito menos, harmoniosos. Nos recriamos, numa reles e ridícula imitação do Criador, nos acreditando os novos Prometeu, capazes de insuflarmos uma pretensa nova vida em nossos pequenos corpos.

Nada permanece inteiro se não for construído com cuidado, técnica, atenção ao detalhe e, sobretudo, seguindo um plano bem desenhado e usando material de primeira. Lembram-se da história dos 3 Porquinhos e o Lobo Mau? O único que não teve sua casa destruída pelo sopro do lobo foi aquele que a erigiu com tijolos, madeira, argamassa e telhas. Ou seja, ele não optou por um simples e eventual abrigo, feito às pressas e descuidadamente, como os seus irmãos, que pensaram apenas no imediato, na situação presente. Ele, Prático (esse era o seu nome), sabia que o lobo era mais forte, mais ladino, mais perigoso e que não seria uma única vez que esse embate entre eles se travaria. Construiu, conscientemente, pensando no futuro, na durabilidade, na relação custo-beneficio que isso lhe acarretaria a longo prazo. E, portanto, foi o único que venceu as ameaças que, tão inteligentemente, soube enfrentar.




A Torre sendo destruída por um fenômeno que vem do mais alto, bem mais alto do que ela, simboliza um momento de verdadeira libertação dos indivíduos que estão emparedados por aquelas paredes, alheios à realidade que os cerca, protegidos apenas por suas fantasiosas pretensões, sua elevada auto-estima, seu desconforto em reconhecer-se parte daquilo do qual ele tenta se isolar. A catástrofe o derruba do alto de seu castelo de areia e o obriga a colocar os pés no chão, na realidade.

Adeus delírios de grandeza. Adeus complexo de superioridade. Adeus Monstro feito de retalhos e sem alma. É chegado o momento de se olhar de frente para um espelho e perguntar-se "Quem sou eu, de verdade?"
Difícil? Doloroso? Assustador? Com certeza. Mas necessário. Deve ser o mesmo que a roupa suja, com traços de perfumes caríssimos, restos de alimentos sofisticados, dos elogios recebidos, das grifes que representam o status de seu dono e o suor de festas intermináveis pensaria se possível isso fosse, ao ser colocadas numa máquina de lavar. Mas de lá elas sairão renovadas, livres de todos esses pretensos atributos, novamente colocadas diante das funções que melhor exercem e onde se reconhecem: uma camisa é só uma camisa, e por aí adiante.

Esse homem da foto aguarda essa mesma faxina. Aguarda ter todos os andaimes e muletas que sustentam um indivíduo que não é mais ele, mas um ser irreconhecível, uma verdadeira colagem de falsos atributos e de absurdas fantasias, serem desconstruídos, lavados num processo de limpeza forçado, ao qual talvez tenha se recusado submeter. Muita agitação, muita cê trituração, muito sabão e água limpa serão necessários para remover as manchas do seu auto-reconhecido complexo de inferioridade, do medo que lhe descubram a verdadeira estatura, da sua eterna busca em "ter" porque não sabe "ser.
Mas ao final do processo, ele, novo em folha, estará pronto para recomeçar. Às vezes do zero. Às vezes, com alguma sabedoria adquirida. Mas, com certeza, irá reerguer-se, aos poucos, procurando evitar repetir os mesmos erros. Que desta vez o faça sem querer surpreender, agradar ou humilhar o vizinho, mas para que sua nova estrutura abrigue um ser melhor: ele mesmo.

Alex Tarólogo

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sexta-feira, 6 de maio de 2016

EXCLUSÃO





EXCLUSÃO

A fotografia acima é a síntese dos muitos problemas enfrentados por todos os portadores de deficiências físicas: o descaso generalizado em relação às suas necessidades.
Estar impossibilitado de locomover-se com as próprias pernas e deparar-se, como na foto, uma escadaria, é mais do que um obstáculo a ser enfrentado, mas o reconhecimento que a sua situação não merece o mesmo apreço que a das demais pessoas. É ser marginalizado pela sociedade instituída por não estar "em acordo" com o que ela considera certo, correto, representativo.

O cadeirante, na imagem, não tem acesso ao que pretende porque as demais pessoas, intencionalmente ou não, não levaram em consideração a sua condição ao planejarem a escadaria. E, pelo tamanho da mesma, é como se ali estivesse para lembrá-lo que aqueles que não estão em concordância com os padrões estéticos, econômicos ou culturais de um determinado momento histórico, serão punidos por isso, vetando-lhes atingirem seus objetivos.




A artista plástica Pamela Coleman Smith, ilustradora do tarot do ocultista Arthur E. Waite, criou para o 5 de Ouros uma imagem forte, onde a ideia de ostracismo, exílio, abandono, descaso, injustiça social é evidenciada. As duas figuras que perambulam pela rua, sob uma nevasca, passando num cenário urbano onde não há uma porta sequer onde possam pedir ajuda e abrigo, foi a maneira pictórica que a artista encontrou para representar a noção de rejeição, de falta de apoio social que os dois caminhantes enfrentam. 
Um deles, deficiente, utilizando-se de uma muleta (a incapacitação física) e com uma bandagem a lhe envolver a cabeça (a doença mental), com um sino pendurado ao pescoço, para, de antemão, anunciar a inconveniência da sua presença, indigna e inaceitável. A outra figura, feminina, envolve-se em panos rotos e caminha descalça pela neve, num evidente estado de miséria e privação (o colapso do aspecto material). 
Ambas caminham sob uma janela, onde um grande vitral com o desenho de uma "árvore da vida" formada por cinco pentáculos, é iluminada do seu interior, como que a nos lembrar que o abrigo, a segurança, o otimismo, as possibilidades, o suporte social ou religioso encontram-se bem guardados, protegidos, cultuados, porém inacessíveis aos que não fizeram jus (em que tribunal?) em merecê-los.

A ideia de injustiça permeia essa carta, que, provavelmente será reparada na próxima, o 6 de Ouros. Enquanto isso, as pessoas continuam a passar pelas calçadas abarrotadas de mendigos, enjeitados, doentes, deficientes, e procuram de todas as maneiras ignorar o que está em seu campo de visão. É como se, recusando-se a ver e conscientizar-se de que há insegurança, carência, impotência, doenças e todas as demais formas de privação, elas deixassem de existir ou as tornasse imunes aos problemas e preocupações.

Ainda que esse problema que assola nossas cidades deva ser algo a ser resolvido dentro da esfera governamental, é preciso que se estabeleça a responsabilidade individual, já que todo governo eleito é a representação do nosso caráter, do nosso estágio evolucionário e das nossas ideologias, crenças e aspirações.

Alex Tarólogo

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quinta-feira, 28 de abril de 2016

ACÃO



NA ESTRADA

A foto, ainda que a princípio tenha um aspecto hilário, além de muito criativa é um ótimo exemplo de como podemos "atualizar", por exemplo, a imagem da carta do Carro, Arcano 7 do Tarot.

O que me atrai nesse conceito que o fotógrafo brilhantemente expressou, é a de que somos nós o "veiculo" que vai em busca, que acelera, que se atrasa, cujo pneu fura, ou a turbina pára de funcionar. Somos nós mesmos os pilotos, motorista, aqueles que fazem a máquina funcionar e que a conduzem por tradicionais e seguras rotas pré-fixadas e, algumas vezes, por estradas estranhas e desconhecidas, pelo simples prazer em explorá-las.

Quantas vezes, por comodismo ou medo, pegamos carona no carro alheio, permitindo que eles nos conduzam, acomodando-nos à sua velocidade e destino? Quantas vezes nos deixamos ficar indiferentes aos nossos desejos ou objetivos e, de maneira alienada, entregamos nossas vidas nas mãos dos outros? E em quantas outras lacrimosas ocasiões nos arrependemos disso?

Para ser o piloto, motorista, condutor da nossa própria vida também há que se ter habilitação. Também será necessário provar-se capaz de compreender os sinais de alerta nas ruas e estradas, de saber manobrar com destreza, respeitando leis e obedecendo regras. É preciso mostrar-se habilidoso não somente no arrancar com o veículo, mas também nos momentos mais difíceis de estacioná-lo, quando encontramos o espaço que buscávamos e que se ajusta perfeitamente às nossas necessidades.




E devemos estar atentos à manutenção da viatura. Cuidar do todo e das partes. Da lataria ao computador de bordo. Saber identificar problemas e onde buscar as necessárias soluções. Não deixar que o carro envelheça em sua funcionalidade, ainda que o modelo possa ficar antiquado. Embutir-lhe novas tecnologias para que a segurança de nossas decisões estejam garantidas, beneficiando que completemos nossos planos de viagem.

E, muito importante, é não conduzi-lo sob a influência de nada que possa iludir-nos, desorientar nossa capacidade, diminuir nossa autonomia e embaçar nossa visão do caminho. Pois o carro e seu motorista são um só, fundidos numa única entidade. Se, para assumirmos o controle da direção é necessário que estejamos suficientemente experimentados, para conduzi-lo é preciso sabedoria, destreza, auto-confiança e determinação. É preciso sentir que é chegado o momento exato de acionar a partida e pisar, com firmeza e segurança, no acelerador.

O resto? Bem, o resto vem naturalmente e daí então é só aproveitar a viagem.

Alex Tarologo

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